sábado, 2 de janeiro de 2021

Instantes Inclusivos - A importância das perdas

O livro ilustrado tem sido o fio condutor desta rubrica no sentido de que os momentos de partilha dos mesmos sejam, isso mesmo, instantes inclusivos que refletem a diversidade, na escola, na sociedade, na vida. 

A importância da nossa existência efémera é a motivação para apreciarmos cada instante, contrariando a frenética passagem do tempo, pois nela existem episódios de perdas e de resiliência. 

O quotidiano com momentos simbólicos que os livros replicam, porque afinal, cingem-se a abraçar a vida para de algum modo amenizar as perdas.


O livro da Avó 

Texto e ilustração de Luís Silva

Edições Afrontamento (2007)


O livro da Avó, originalmente publicado em grande formato, proporcionava o impacto do seu manuseamento, oferecendo a experiência de um contacto com a ilustração como de uma grande tela se tratasse. 

Em qualquer das suas edições, a tela “fotográfica” permite-nos visualizar as memórias de um neto através dos momentos partilhados numa casa onde habitavam aventuras e mimos. As ilustrações sépia transportam o protagonista e também o leitor para um cenário onde se vivenciam os sentidos. Os cheiros, as escutas de histórias partilhadas, a vista da varanda com o mar no horizonte até ao vazio da ausência. O sentimento da saudade e dos afetos na circularidade das mensagens afetivas entre avó e neto. Um livro que folheamos vemos sem conta num sentimento de carinho nostálgico. 

Merecidamente, este livro foi vencedor do Prémio Bissaya Barreto de Literatura para a Infância em 2008.

 O comboio

Texto de Silvia Santirosi

Ilustrações de Chiara Carrer

OQO Editora (2012)


O sentimento da perda vincado pela ausência de alguém. 

Uma corrida contra o tempo protagonizado num sonho simbólico numa viagem de comboio. A impotência perante o futuro e o desejo de inverter o irremediável  numa talentosa narrativa que combina texto e ilustração que permitem compreender a tenebrosa escuridão das perdas e percepcionar a necessidade de tempo para assimilação  da realidade.

Se o texto é extremamente simbólico, também o é a composição de Chiara Carrer na ilustração conceptual de desenhos simples, quase esboços frágeis como a vida mas que delicadamente nos enternecem entre os afectos protagonizados entre pai e filha. 


O Regresso 

Texto e Ilustração Natalia Chernysheva

Bruáa (2014) 


Um livro sem texto onde a narrativa é feita na interpretação das ilustrações. Estas, de linhas  arejadas e de predominância de preto e branco remetem para imagens do passado transportando uma certa nostalgia no folhear das mesmas.

O regresso aos reencontros, as recordações de cheiros, as flores, os jardins. Os espaços deixados pelas saudades. Os afectos que apesar da ausência permanecem para sempre na memória. Os lugares que revisitamos e a que regressamos, em muitos casos, como se fosse a primeira vez, onde se desfazem recordações imaginadas e se renovam forças nos abraços de quem nos espera. 

Um livro que devolve as memórias apesar de eventuais perdas.


 

Arturo 

Texto de Davide Cali 

Ilustração de Ninamasina 

Bruaá Editora (2012)


Arturo,  como nos é revelado na capa é um cão, e é ele o protagonista da narrativa. 

O texto transporta-nos para uma busca incessante de alguém que Arturo procura. A ilustração através de fotografia, aumenta o impacto da narrativa. Sendo este cão protagonizado por um peluche é a componente da imagem que nos envolve na narrativa e nos faz identificar com a perda do personagem. Surpreendentemente esquecemos facilmente que não é humano, nem sequer um ser vivo. Mas que representa a busca incessante da perda de alguém.   

A procura nos lugares costumeiros por alguém que o leitor desconhece  mas que progressivamente vamos percebendo as rotinas, os locais. 

A procura incondicional, porque assim o é o amor. Um livro tão enternecedor quanto a busca incessante de um retorno, de uma companhia e consolo.  


O Urso e o Gato Selvagem

Texto de Kazumi Yumoto

Ilustração de Komako Sakai 

Bruaá Editora (2011)  


Uma vez mais, um animal é o protagonista de uma perda. Desta vez um urso, que tal como os humanos, reage negativamente à morte do seu amigo pássaro. A narrativa extremamente comovente quer ao nível do texto, como da ilustração circula sobre o nosso olhar cinéfilo de um álbum de fotos antigas que acompanha o processo de luto, envolto em memórias e afectos mas também a aventura de um futuro próximo com apoio e reforço de uma nova amizade com um gato selvagem.

 


O coração e a garrafa

Oliver Jeffers

Orfeu Mini (2010)


Um livro soberbo do excepcional artista multifacetado Oliver Jeffers.  

Utilizar metaforicamente a ideia de uma criança guardar o coração numa garrafa para se proteger da perda, é em si já um fabuloso enredo. Depois a acrescentar à narrativa a técnica mista de ilustração com recurso à imagem fotografada para nos envolver é um deleite visual. 

Como a protagonista sentimos a curiosidade pelo mundo e desmoronamos com a noção de perda. Com ela vivemos a necessidade do tempo para minimizar a perda e vivenciamos sentimentos com os que nos rodeiam. O mistério da circularidade da vida . Uma pequena enciclopédia dos sentimentos que nos deixa o coração literalmente exposto, metaforicamente, falando, obviamente.

 


Para onde vamos quando desaparecemos

Texto de Isabel Minhós Martins

Ilustrações de Madalena Matoso


Com base na premissa que o desaparecimento só acontece se alguém der conta, este livro aborda a questão da perda e da morte de um modo contínuo e com algum humor. Revelando a temática para um assunto da curiosidade humana  é traçado uma narrativa do ponto de vista da ilustração com uma linha preta que funciona como fio condutor do percurso que cada um de nós faz na vida, preenchido com memórias, escolhas e afectos. 



Paraíso 

Bruno Gibert 

los quatro azules (2009)

De um modo prático e aparentemente simples mas inteligente e exponencialmente poético o autor remete as ilustrações para símbolos iconográficos.

Na utilização da sinalética convencional o autor utiliza não só a linguagem da palavra mas também a linguagem das emoções, estabelecendo com o leitor um diálogo sem respostas sobre a morte nas mil e umas perguntas que sobre ela frequentemente fazemos. 

Um percurso de memórias onde o autor nos transporta para as questões de uma viagem sem retorno. Quem sabe, para o Paraíso?


O tempo do gigante

Texto de Carmem Chica 

Ilustrações de Manuel Marsol

Orfeu Negro (2015)

Um livro que se apresenta em grande formato (24,4 x 34,5 cm), manifestando-se desta forma como arrebatador e imponente. 

A grande figura, protagonista da capa e da narrativa conduz-nos desde logo a esse arrebatamento. A questão da grandeza. 

E é precisamente nesse trocadilho sensorial que vive a narrativa. 

Com escasso texto a acompanhar as ilustrações sublimes, remete-nos para a vida do individuo na sua dimensão e na sua passagem pela vida. De uma forma singela remete para as passagens das estações e consequentemente para a passagem do tempo. A importância de se olhar os minúsculos acontecimentos, que aparentemente na rotina dos dias se parecem iguais. Uma ode à passagem do tempo, às memórias e à valorização dos momentos. 

Livro premiado na categoria de melhor ilustração de livro infantil (autor estrangeiro) na BD amadora 2015. 

Em 2014, cinco ilustrações desta obra, tinham sido já premiadas em 2014, com o Prémio do Catálogo Ibero-Americano de Ilustração, pela sua qualidade gráfica e estética e sensibilidade poética.  

in: Revista Pró Inclusão Vol. 10, N.º 1 - junho 2019



sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Instantes Inclusivos - (Re)inícios

Partilho algumas preciosidades de leitura que abordam o primeiro dia de escola para alguns, o seu reinicio para outros ou ainda as experiências significativas dos ciclos que fazem parte da vida.  


Lucas y Oso

José Campanari (texto)

Kristina Andres (ilustração)

OQO editora (2010)


Um livro simples, sem explicações aprofundadas de como as crianças enfrentam os medos e a própria maturação. 

As fases do crescimento nunca são fáceis mas é por isso mesmo que o livro funciona como catarse. Com alguma dose de humor e muita autenticidade, José Campanari, relata os episódios de enurese noturna e o drama do primeiro dia de escola. 

Ilustrações maioritariamente de caneta e aguarela, com técnica de trama para delinear as sombras, transportam-nos para as memórias que associamos à infância. A gramagem e textura do papel com uso pontual de carimbos e algumas composições digitais, de cores pastel quentes, apresentam todo o universo de objetos e cenas do quotidiano a par da imaginação infantil. Os relevos de cores frias evidenciam elementos pontuais em concordância com a oscilação dos sentimentos. 

Crianças pequenas identificar-se-ão com o protagonista. Os mais velhos, irão com certeza recordar esses momentos da infância, com um sorriso nos lábios e um sentimento de nostalgia. 


O primeiro dia de escola

António Mota (texto)

Paulo Galindro (Ilustração

Gailivro (2011)


A preocupação com o primeiro dia escola, por parte de uma menina que anseia do seu irmão mais velho a tranquilidade da experiência. Contudo, ao inverso, o irmão, de modo humorístico, mas bem dramático para a personagem ansiosa, responde às inquietudes da irmã com situações surpreendentes, deixando-a obviamente assustada. 

É o avô, personagem apaziguadora do conflito que numa viagem, à sua própria infância, nos relata experiências geracionais e o valor da amizade. O autor aborda na sua narrativa o crescimento, a importância da partilha da família na questão do serenar medos e de partilhar sentimentos. Recorrendo à fantasia do texto de António Mota, Paulo Galindro ilustra a narrativa numa composição de diferentes técnicas e paletas de cor diversificadas onde a ilustração ocupa as páginas, invadindo o texto escrito, de modo a que texto e ilustração se fundem numa amálgama divertida de leituras paralelas.

 

Era Uma Vez um Dia Normal de Escola

Colin McNaughton (texto) e Satoshi Kitamura (ilustração)

Ana Paula Faria – Editora (2005)


A rotina diária habitual de um aluno é alterada com algo fora do normal. A mudança de um professor pode causar efeitos secundários muito positivos na vida de uma criança, especialmente quando essa presença se reveste de originalidade e de música. 

Uma extraordinária viagem de imaginação e criatividade que apela aos sentidos e à capacidade de transformar momentos do nosso imaginário. 

A ilustração de tinta de china, de linha inconstante provocada pela gramagem fina do papel conduz o leitor numa narrativa gráfica que oferece um jogo feliz de tridimensionalidade e bidimensionalidade. O jogo de cores comunica de forma relevante com a intenção da narrativa textual, conduzindo o percurso narrativo num crescendo empolgante até ao desfecho cíclico. 

As próprias guardas do livro contrastam entre si, remetendo a inicial para a monotonia dos dias, em oposição com a guarda final, após a vivência extraordinária de escutar a magia da música e da criatividade. 

Um deleite para a imaginação de todas as idades e claro para os professores que proporcionam dias diferentes aos seus alunos. 

Obviamente que este será também um livro para  todos os que amam a música e com ela se inspiram todos os dias.

 

A árvore da escola

António Sandoval (Texto)

Emilio Urberuaga (Ilustração)

Kalandraka (2017)


Apelando à conservação e preservação da natureza o cenário de composição gráfica centra o plano da ação onde decorre narrativa. O pátio da escola onde uma criança se desloca, na base dos afetos para com a natureza, influenciam o percurso temporal. 

Uma paleta de guache ou acrílico dão a cor à ilustração com elementos definidos, sendo a construção da figura humana, a preto desenhada, em cima da mancha numa interação visual realçando pormenores da narrativa visual acompanhando a textual. A circularidade prévia da narrativa enternece mesmo os mais insensíveis. Remete para a crença nos afectos, o deslumbramento da natureza e a esperança de um mundo que melhor respeite o planeta. 

Nada de mais, extremamente simples, as crianças compreendem. Os adultos, alguns, precisam de se deixar enternecer pelas coisas simples da vida. 

 


Abílio

Marco Taylor

Edição de autor(2016)


Marco Taylor é o autor da ilustração da revista onde foi publicado este artigo. Responsável por diversas obras que manifestamente primam pela originalidade da ilustração e também pelas abordagens fora do convencional editorial. 

Abílio é um dos exemplos. Livro sem texto, deixando ao leitor a construção da narrativa onde, as ilustrações, claramente estão construídas com um fio condutor, mas não estanque na sua interpretação. Desde a capa despretensiosa, às guardas com mensagens nas entre linhas, conduzem-nos para a identidade do personagem que pretende versar. Ilustração com colagens, lápis de traço irregular, com algum trabalho digital numa composição limpa e arejada. 

Uma introdução gráfica antes da ficha técnica, remete-nos para uma leitura cinematográfica da narrativa. Pormenores aparentemente simples, mas que fazem toda a diferença para a compreensão leitora e antecipação da narrativa. 

Abílio é o protagonista, pouco sabemos dele, quase não o vemos, ou talvez seja ele que não quer ser visto. Vagueia noutra dimensão. Vê as coisas de outro ângulo. Vive numa outra perspetiva do mundo. Este porém, é um lugar de regras convencionais que acorrentam os indivíduos que desde cedo sonham outros ciclos. O argumento apresenta um final desenhado, do ponto de vista da ilustração, mas o texto, esse, fica em aberto para a continuidade de outros enredos, outros ciclos, como na vida. Existem imensas possibilidades de leitura, de interpretar e sobretudo de como o aceitar o outro. Lê-se vezes sem conta, tão circular como a vida. Encantador e único como cada indivíduo. 

in: Pró Inclusão Vol. 9, N.º 2 - dezembro 2018


domingo, 1 de novembro de 2020

Instantes Inclusivos - Somos todos parte do mesmo mundo, mesmo sendo diferentes.

 Somos todos parte do mesmo mundo, mesmo sendo diferentes.

Com base na premissa do título dado a esta rubrica, apresentam-se diferentes livros onde este conceito se manifesta. Livros genialmente pensados para falar do ser humano, da sua individualidade, na sua passagem pelo tempo, do modo como convive em sociedade ou o tenta fazer, mas principalmente na importância crucial da diversidade. 

Quebra-cabeças
de Diego Bianki 
Kalandraka (2017) 
 

Quebra cabeças é originalmente publicado em 2013, exposto na Ilustrate 2014 (exposição bienal de ilustração em Lisboa na mesma data).
Foi, precisamente, na Ilustrarte que o manuseei pela primeira vez. Desde logo me fascinei pela capa. Quando a observamos logo nos seduz, e todo o encanto inicial se completa no folhear das suas páginas como um autêntico deleite.  Cada uma delas constitui-se como um factor surpresa, a par de uma mensagem acompanhada de pequeno texto remetendo para características únicas e individuais de cada personagem. A ilustração de enorme criatividade é da responsabilidade do argentino Diego Bianki que une a mensagem inclusiva à ética da reciclagem, revelando-se uma experiência indescritível.  
Premiado na Feira de Bolonha em 2016, com a Menção Especial atribuída pelo júri na categoria de “Disability” chega a sua tradução  a Portugal em 2017 pela editora Kalandraka. 
A meio do livro, o leitor é confrontado com um desdobrável que convida a um acesso privilegiado de observação atenta e minuciosa da mensagem que pretende transmitir. Cada página remete para a individualidade de cada personagem, no respeito pela diversidade.
O trabalho gráfico, para os mais distraídos, é explicado no final do livro, com a utilização de inúmeras e diferentes caixas de cartão pintadas, que  representam diferentes identidades individuais, mas que, tal como no mundo real,  na verdade se relacionam. O leitor, é nesta seção final, convidado a também ele criar as suas próprias personagens e a realizar os seus próprios quebra cabeças. 
Este  livro/jogo, a par de uma preocupação ecológica, “Recuperar, reciclar e reutilizar" logo evidenciada na página inicial, aborda a existência única do individuo, a sua relação com os outros seres na terra, para além do universo, utilizando de certo modo o humor para criar um quebra cabeças infinito de um mundo, onde todos estamos representados e do qual fazemos parte. 
Orelhas de Borboleta
Texto de Luisa Aguilar; 
Ilustração de André Neves 
Kalandraka, (2011)

Orelhas de borboleta, de certo modo, através de alguma ironia combate os estereótipos do famigerado “bulling”, em que muitas vezes as crianças se veem confrontadas, mas sendo também elas atores. Dos dois lados, vemos os que são alvo de troça e os que recebem esses rótulos. 
De modo humorístico, com alguma ironia,  a personagem alvo de troça, a par do reforço da figura maternal, como suporte, valoriza os seus apontados defeitos, apresentando-os como relevantes nas analogias que faz. Mara, a personagem não só brinca com os outros como consigo própria. O texto sensível, direto mas também poético de Luísa Aguilar desfila a par da poesia da ilustração de André Neves que combinando diversos materiais e diferentes texturas nos transporta para um mundo sensível e poético do respeito pelo outro.
Livro finalista do IV Prémio Nacional CIttá Di Bella 2008 (Itália).


 
 Os de cima e os de baixo
Texto e ilustração de Paloma Valdivia
Kalandraka (2009)  
 
Pautado pelas diferenças de viver em mundo paralelos, também as semelhanças fazem parte do mundo que habitamos. As divergências podem mesmo completar-se ou existir em simultâneo e no desejo universal podemos até coexistir juntos, não existindo desse modo a diferença espacial que nos separa. 
Texto e ilustração da Chilena Paloma Valdivia que inteligentemente nos mostra de modo humorístico em dois tempos, ilustrações simétricas de cores suaves. Ao manusear este livro, o mesmo convida o leitor a fazê-lo modo antagónico à leitura habitual.  Com base na referência espacial, texto e imagem podem ser lidos em diferentes posições e sentidos da narrativa social e estética, chegando mesmo, após um voo, a misturar-se habitantes das diferentes latitudes. Um livro que deliciosamente nos transporta para o que somos e onde pertencemos. 

 

A Orquestra
Uma volta ao mundo à procura dos músicos
Cloé Perarnau 
Planeta Tangerina (2018) 

Livro de grande formato, em forma de jogo, solicita ao leitor a busca de diversos personagens. Em jeito de “Onde está...”, a narrativa convida a uma viagem pelos vários países do globo, na busca dos diversos músicos que em véspera de concerto desapareceram.
Replicando a ideia de postais ilustrados, o maestro recebe pistas para localizar os músicos. De modo curioso existe algumas analogias entre os instrumentos e as cidades onde se encontram os respetivos executantes. Uma viagem musical através do conhecimento do mundo onde vivemos para olhos bem atentos aos pormenores da ilustração.


O tempo do gigante 
Texto de Carmen Chica 
Ilustração de Manuel Marsol
Orfeu Negro (2015)

O tempo do gigante, é tempo de qualquer um de nós, porque o tempo é o que fazemos dele ou o que damos valor na sua passagem. Um desfile das estações do ano, da memória e da nostalgia da passagem dos dias. Porque muito frequentemente, não se passa nada de especial nas nossas vidas. Episódios que simplesmente acontecem, nada de extravagante. Apenas a memória e a passagem do tempo. 
O texto simples, elucida o leitor para o pensamento do personagem, na linearidade do seu pensamento na leitura da vivência dos seus dias. A ilustração acompanha a reflexão do personagem, remetendo o espectador para um olhar mais atento e preciso do que por vezes acontece à nossa volta, sem que se dê conta. 
A ilustração arrebatadoramente sedutora, de Manuel Marsol, de cores pálidas com alguma opacidade, transporta-nos para a sensibilidade poética do mundo em nosso redor. Do que cuidamos enquanto existimos, do que valorizamos nas memórias que transportamos. 
Livro de grande formato, publicado originalmente em Portugal, na referida edição. Feliz opção da editora, que pela escolha poética e estética da obra supracitada lhe valeu posteriormente sucessivas edições estrangeiras (Espanha, Korea, China).
Livro galardoado com o Prémio Amadora BD em 2015 para Melhor Ilustração de Livro Infantil, tendo em 2016, este festival dedicado uma exposição ao ilustrador e à sua obra. Cinco das suas ilustrações foram premiadas com o 1º prémio do Catálogo Iber-Americano de Ilustração (2014). 

 


Obrigado a todos
Texto de Isabel Minhós Martins
Ilustração de Bernardo Carvalho
Planeta Tangerina (2016)
(1ª edição – 2006)

Obrigado a todos remete para a circularidade desta rubrica. Todos fazemos parte de um mesmo mundo. Não vivemos sozinhos, dependemos e aprendemos com os outros. Conhecemo-los e intrinsecamente conhecemo-nos a nós próprios. Descobertas e experiências relevantes no desenvolvimento de cada um que transforma a nossa identidade. Por isso mesmo, a personagem deste livro sente-se grato com a partilha e decide que essa aprendizagem deve ter um retorno, neste caso, em forma de agradecimento.
O texto, de modo linear, acompanha o conhecimento do personagem no desenvolvimento da sua aprendizagem, dir-se-ia, das pequenas coisas da vida. Mas essas singularidades são afinal pormenores tão relevantes para as características que temos, algumas delas que assimilamos na apropriação das relações e dos afetos. De ligações e conexões textuais tão bem acompanhadas da ilustração equilibrada entre cores quentes e frias, de guache e acrílico, em formato quadricular, como que parecem encaixilhadas, de certo modo como de um álbum de fotos se tratasse. Talvez porque, retemos na memória, imagens das vivências e histórias que cada um de nós impregnou na pele. Somos parte da memória que com os outros partilhamos. 

In:  Instantes Inclusivos da Revista: Educação Inclusiva (revista da Pró-Inclusão - 
Associação Nacional de Docentes de Educação Especial) vol. nº9 - nº 1 - julho 2018



sábado, 31 de outubro de 2020

Instantes inclusivos em tempos natalícios

Em tempos natalícios corre a azáfama e nela a procura de livros relacionados com o tema. Inúmeros são os títulos que incidem ou que circundam a temática. A opção nunca é fácil.  Na minha preferência estão os que se elevam para além do tema, tecendo o fio das palavras e dos afetos, sacudindo as mentes com as questões da vida para além de um marco anual. Num registo que medeia a comemoração num tempo que se apela à importância da família, à partilha e à dádiva percorre-se eventualmente um tempo do percurso da infância que desaparece depressa demais. É nesse tempo da memória de infância, dos tempos mais demorados e bucólicos, misturados com os cheiros e das correrias próprias da infância, que recaem as minhas escolhas.
Abordando o natal agitando os apegos e apelando à reflexão natural das coisas, muitos são os livros que brincam com os mistérios do pai natal e a sua própria existência.
Exemplo disso é o hilariante Sabes, Maria, O pai Natal não existe de Rita Taborda e Luís Henriques. Caminho (2008).

Com humor e sentido critico Rita Taborda Duarte transforma um assunto cliché numa deliciosa trama psicológica. No seio familiar, um irmão quebra o deslumbramento da existência do velho de barbas brancas, questionando não só o imaginário infantil que existe em todos nós, como coloca a questão da identidade e reconhecimento do próprio pai natal. As ilustrações de Luís Henriques, numa linha gráfica de tinta da china e utilização de lápis, que tão bem completam habitualmente a mestria humorística da autora, transporta-nos para alguns ambientes isotéricos que adultos mais atentos reconhecerão. As crianças, essas, não ficarão indiferentes, quer a toda a teia textual, como ao inesperado final que se deseja numa narrativa reflexiva que efetivamente sossega e clarifica as nossas dúvidas e satisfaz os nossos desejos e crenças mais fervorosas.
Dúvidas que a existir, em muitos casos, são as crianças que explicam aos adultos. É o que acontece em:
Eu sei tudo sobre o pai natal de Nathalie Delebarre e Aurélie Blanz. Editorial Presença (2010)
Livro no qual,  o narrador autodiegético, contrapõe as afirmações e dúvidas dos adultos, relatando, enquanto observador do mundo que o rodeia, os seus pontos de vista sobre a existência do pai natal. Numa ilustração contemplativa e mágica a narrativa da imagem acompanha os pontos altos da descrição textual numa circularidade perfeita entre inicio e fim da história que as guardas nos oferecem.
Humaniza-se a personagem idolatrada do pai natal com tudo que de humano e místico ele possui. Porque afinal é um personagem de carne e osso, tal como nos remete a narrativa do livro:
 As férias do Pai Natal de Lourdes Custódio e ilustrações de José Cardoso Marques. Campo das Letras (2001)
Humanizando a personagem do pai natal, elenca os seus contextos de vida fora da época natalícia. Um pai natal versátil, usufruindo das férias merecidas depois da época bucólica e agitada em que tem o seu destaque, munido de telemóvel e computador portátil não descurando nunca, a eterna faceta de responsável no que concerne às suas tarefas. As ilustrações bastante coloridas numa composição analógica completam as descrições textuais.



Au Village des péres noel – ken kuroi e Junko kanoh (mango – 1991)
Um percurso em forma de calendário que acompanha, durante os doze meses do  ano, o quotidiano e rotinas da vida, não de um pai natal, mas de vários, na preparação e organização das tarefas até à noite mais esperada para todas as crianças da Terra.
A ilustração remete para uma paleta de cores pastel, bem luminosa, conferindo uma certa simplicidade estética que harmoniza texto e imagem. 


Porque o natal é o ambiente da família Cinco Pais Natais e tudo o mais de Manuela Castro Neves e ilustrações de Maria Bouza. Máquina de Voar (2015),  aborda acontecimentos em época de Natal, no conceito de família e das  crianças na relação com esta, a magia, o humor, a alegria, numa narrativa crescente recheada de elementos rítmicos, da aproximação da prosa à rima das palavras. Estas, a par da sua sonoridade, remetem para a cadência dos acontecimentos, com alguma previsibilidade dos mesmos, possibilitando de certo modo alguma cumplicidade de previsão das situações, devido ao efeito cumulativo da narrativa espiral a que as peripécias se vão sucedendo. Existe da parte da autora uma intenção na vertente lúdica e pedagógica na abordagem de conceitos matemáticos versando simultaneamente a questão dos afetos de uma família que se preocupa com a brincadeira do protagonista que procura cinco Pais Natais de chocolate, revestidos com papel de prata de cores garridas, a par dos preparativos natalícios habituais desta época festiva.
A ilustração de Maria Bouza, numa paleta de cores pastel, alusiva à época festiva, de padrões também eles cumulativos, oferece a simetria entre o aspeto gráfico, em perfeita harmonia com o texto (também este sequencial). 
O aspeto geométrico da ilustração assemelha-se a uma construção de colagens e recortes, de nivelamento anatómico com alguma estilização bem próxima do detalhe que é familiar das crianças. Estas reconhecem-se nesta síntese bidimensional, muito próximo das suas criações gráficas.
Uma história que permite variadas leituras, podendo transgredir na sua sequência narrativa, como na leitura gráfica, oscilando entre cada acontecimento da vida diária e o desenrolar das mesmas para o desfecho final. Este, particularmente hilariante e feliz, da vida de um peru à mistura de bombons de mirtilos e limão.

O natal em família é feito de um tempo único de experiências e brincadeiras, todas elas envoltas de algum secretismo, existindo mesmo determinadas regras. É o que se passa contemplando:
 Attention Noel  de Raphael Fejto – L ´école des loisirs (2014)
Constitui-se como um livro jogo, interativo, partindo de sinais de trânsito evoca determinadas regras natalícias (obrigações, proibições e precauções) amovíveis que se destacam em cada página.
Se, por exemplo, quando neva, as crianças podem exibir o sinal da obrigação de fazer uma batalha de bola de neve aos pais, também estes, pelo seu lado, podem exercer o sinal de proibição para pedir muitos presentes no momento de escrever sua carta ao Pai Natal, mas claro, o inverso também é possível. Um modo lúdico e humorístico de revisitar e de agir durante a época de Natal.
Livro grosso, cartonado, bastante robusto o que permitirá que transversalmente crianças e adultos possam o utilizar e partilhar vezes sem conta.

Milagre de Natal com texto de António Torrado e ilustrado por Inês Oliveira; Civilização editora (2008), é em si próprio uma autêntico milagre quer na delicadeza do texto, como na ilustração quase cinéfila que nos embala para a azáfama do natal, das compras e das correrias a par das distrações eventuais de um pai natal.
Um cachorro, evidente na capa é o mote da trama. Abandonado na rua, acaba por chegar por engano, como se de um presente se tratasse, a casa de uma família que o confunde inicialmente por um peluche. Mas esta sinopse da narrativa é pobre para descrever todo um texto esmeradamente poético e que nos coloca no papel do personagem abandonado e fragilizado, perante as pessoas que correm à pressa, focadas nas últimas compras, num tempo tão solidário.
Existe uma versão mais recente com ilustrações de Tiago Pimentel (Edições Asa – 2016), nesta edição, o desfecho final é quase evidente na capa, ao contrário da primeira edição onde toda a ilustração a par da narrativa, nos deixa em suspense até ao final da mesma. Em termos de ilustração, design gráfico e acabamento final, a minha preferência, vai sem dúvida para a primeira edição.


Sonho de neve do fascinante autor/ilustrador Eric Carle, editado em formato cartonado pela editora Kalandraka (2010) constrói uma analogia metafórica de um agricultor com o pai natal, fomentando  uma narrativa simbólica sobre os mistérios desta festividade. As ilustrações num agradável colorido de estilo “inconfundível” (de colagens e texturas a par de páginas em acetato) associadas ao factor surpresa, na interação com o público destinatário, tornando-o cúmplice de uma intensa experiência mágica, táctil e sonora.

Na noite de natal é certo que nem todos têm a sorte de ver a chegada do pai natal. Outros porém conseguem-no. É o que se passa em Um beijo para o pai natal de Elisabeth Coudol, (Edições Nova Gaia – 2001). Max, a criança protagonista desta história, fica acordado à espera do pai natal, como é sabido, todas as crianças têm esse desejo. Mas perante a alegria do encontro existe o confronto com a velhice, cansaço e desalento do pai natal. Depois de muitas tentativas por parte do protagonista, finalmente consegue descobrir o que faz o pai natal sonhar! Por isso mesmo receberá um beijo do pai natal. De narrativa simples, bem encadeada e com algumas peripécias envolvemo-nos saborosamente a identificar as coisas simples da vida. Ilustrações de cores vivas  e quentes, a par da época natalícia num desfecho final nas guardas do livro. 

Une étoile dans la nuit – Texto de Faustina Fiore e ilustrações , design e engenharia de papel por Andy Mansfield – 2011 – editions Quatre Fleuves. O que confere particularidade a este livro é o facto de se apresentar num espetacular pop-up que acompanha o percurso da  célebre estrela que encaminhou os Três Reis Magos, qual farol no universo, numa clara mensagem natalícia de se manter acesa a chama da partilha.


Mas depois do frenesim da data festiva fica todo um tempo suspenso, quase bucólico e nostálgico. O contraste do tempo antes, a par de um momento parado no tempo.
Depois do natal de Beatrice Alemagna; Bags of Books (2010), retrata esse momento em que da agitação se dá lugar à calma, de um tempo intermédio entre o antes “apoteótico” e o depois “nostálgico” no retorno a momentos simples da vida, nos quais se aprendem novas competências ou se decidem novos projetos. A ilustração de composição mista de colagens/fotografia/lápis oferece-nos no desfilar das várias páginas duplas uma experiência sensitiva e nostálgica mas sobretudo poética.


In:  Instantes Inclusivos da Revista: Educação Inclusiva (revista da Pró-Inclusão - 
Associação Nacional de Docentes de Educação Especial) Vol. 8 - Nº 2 - (dez 2017) (pág.40-42)

terça-feira, 3 de abril de 2018

AS REGRAS DO VERÃO


AS REGRAS DO VERÃO
Shaun Tan
Kalandraka (2014)

Este livro, de grande formato, deleite para os apreciadores de arte, é recomendado pelo autor para pequenos e grandes. Evidentemente que se entende que nada tem a ver com a dimensão do leitor, mas antes uma indicação que é para todos os que se disponibilizam com algum do seu tempo. Tempo para um olhar atento e cúmplice, de quem já vivenciou algumas das situações referidas e sabe que há regras que são indiscutíveis, ou que pelo menos tendem a ser simplesmente “porque sim”.
É de aprendizagens que fala este livro. Num tempo privilegiado de descobertas que é o verão, como que se de um diário se tratasse, a criança mais nova regista os pequenos textos (regras), a par das ilustrações/pinturas de duplas páginas ou página inteira que elucidam as convenções sociais impostas por crianças e/ou adultos e, de algum modo, a consequência do não cumprimento das mesmas. Uma aventura protagonizada por dois rapazes, envolta num ambiente fantástico e surrealista numa busca de conhecimento e autonomia.
Embora exista o aviso, (remetendo para a nota em contra capa: “Nunca quebres as regras. Sobretudo se não as compreendes.”) Existe a “provocação” do quebrar das ditas regras. É na metáfora das experiências de vida, na relação do mundo e com o outro, a par das ilustrações que remetem para a sobredimensão das situações vividas, onde visualmente se deslumbra o descalabro, o espanto, o imaginário, mas também o desafio do crescimento. Envolto em ficção e fantasia, e de certo modo também com uma dose de nostalgia que o autor/ilustrador já nos habituou, este livro poético, oferece leituras paralelas, essencialmente na ilustração que alarga o pouco texto narrativo. Mundos desprovidos de representação real, mas que da realidade fazem parte, contaminando instantes misteriosos e surrealistas numa fascinante incursão da leitura que fazemos do mundo e como nele vivemos, envoltos em medos e desejos, mas sobretudo de descobertas e mudanças constantes. Uma viagem pelo desenvolvimento, a par do absurdo e do imaginário, numa circularidade do que é a aprendizagem real e, sobretudo, de quem afinal, aprende com quem.



Elvira Cristina Silva