O livro infantil, não
necessita propriamente ser só para crianças. Nesta rubrica já referi que um bom
livro é transversal e que os adultos são normalmente contagiados, quando o enlace
entre uma boa narrativa e a ilustração se fundem na perfeição.
Essa união funciona como complemento
das nossas emoções, a narrativa textual penetra a par do que a imaginação lê
nas entrelinhas da ilustração.
O livro, para ser utilizado
pelas mãos das crianças funciona a par da narrativa, como um instrumento
facilitador da linguagem e comunicação.
O livro adaptado, que
recorre aos sistemas aumentativos e alternativos de comunicação (SAAC),
funciona como um instrumento facilitador dessa comunicação, no sentido em que
para desenvolvimentos muito específicos, devido a diferentes factores,
possibilita de modo acessível a aproximação à narrativa, através de símbolos
que funcionam como um meio gráfico compreensível e prático.
Ferreira; Ponte e Azevedo (2000)
referem três vertentes comunicativas a promover na criança, nomeadamente funcional,
espontânea e independente (pág.123).
Para que se possa constituir
como um instrumento de comunicação
funcional a história adaptada deve inserir-se em contextos naturais e abranger
vocabulário relacionado com os interesses e necessidades da criança,
possibilitando que esta interprete os factos e os relacione entre si.
De modo a promover a
comunicação espontânea, oferece-se oportunidades de escolha e incentiva-se a
tomada de iniciativa.
No sentido de fomentar o
desenvolvimento da comunicação independente, recorre-se aos símbolos, os quais
proporcionam um esquema simplificado das categorias verbais e simultaneamente
uma expansão da ilustração, facilitando a compreensão da narrativa. (Barbosa,
2003; página 59).
Ferreira; Ponte e Azevedo (2000)
referem que as histórias devem ser ritmadas e com linhas de repetição, permitindo
à criança tomar a iniciativa de participar na leitura, introduzindo durante a
narração da história as frases repetitivas transcritas em símbolos. Premissa
reiterada por Caldas (2000) quando refere: "as crianças, em particular,
têm prazer na repetição, seja ela de um pequeno gesto, seja de um ruído, ou de
uma história. ... Pode dizer-se que os eventos que se repetem no tempo se
transformam em atractores de experiência, dando ao sujeito um núcleo de
memorização" (p. 195).
A questão da memorização na
utilização do símbolo pictográfico é deste modo enfatizado, permitindo em
simultâneo a comunicação espontânea e independente, fomentando a capacidade
comunicativa e autónoma da criança para além do favorecimento do desenvolvimento
global das suas capacidades, como a atenção ou discriminação perceptiva.
Reconhecendo-se a
importância deste sistema aumentativo e alternativo de comunicação, não só
pelos autores já citados, bem com investigações realizadas que comprovam
diferenças significativas nas interações das crianças que usufruem destes
recursos (Nogueira, 2009; pág. 127), existem em diversas redes sociais, alguns
trabalhos feitos por profissionais de educação no sentido da partilha de
materiais com livros adaptados. A oferta editorial, contudo, infelizmente, ainda
é reduzida.
O Segredo do Sol e da Lua com texto de Graça Breia e Manuela Micaelo, ilustrado
por Raquel Pinheiro foi um dos primeiros livros editados pela Cercica em 2008.
Uma coleção com o nome de 4Leituras que remete para a leitura propriamente dita
e incluindo um DVD que permite a audição da estória narrada; a estória narrada
e acompanhada em LGP (Língua Gestual Portuguesa); e a versão narrada acompanhada
pelo SPC (Símbolos Pictográficos para a Comunicação).
Esta coleção associa a cada
livro uma oferta adicional, tendo sido o primeiro acompanhado de um livro impresso
cartonado, com a narrativa acompanhada pelo referido sistema, encadernado em
sistema de argolas para fácil manuseamento.
Livro que também pode ser adquirido individualmente,
contudo face a uma tiragem de 1000 exemplares, já é pouco comum, a
possibilidade de se encontrar disponível para venda.
Todos os outros títulos
desta coleção remetem para esse sistema de comunicação mas requer a utilização
do DVD o que na prática dificulta o acesso. Sabemos que nem todas as escolas
têm aceso a computadores, o software nem sempre reconhece o DVD e não
possibilita a impressão do mesmo, o que a ser possível também envolvia alguns
custos para que a sua utilização fosse a ideal (cartonado, a cores,
encadernado....)
De salientar que este livro,
sendo uma óptima ferramenta, apresenta-se como uma razoável durabilidade mas de
relativo manuseamento para mãos pequenas.
A editora Kalandraka, editou em Portugal (2009),
dois títulos já existentes no seu catálogo publicados originalmente em 2005:
Chibos Chibões, da autora Olalla
González, ilustrado por Frederico Fernandez e
O Patinho Feio de Manuela Rodriguez e ilustrações de Ana Sande. Em
parceria com a associação galega B.A.T.A. Associação responsável pelas versões
dos textos na coleção intitulada MAKAKINHOS, são publicados estes dois títulos
com o SPC.
Esta editora tem ainda no
seu catálogo, outros títulos publicados nesta coleção, infelizmente, apenas em
espanhol, nomeadamente o famoso A que
sabe a lua de Michael Greniec, editado entre nós, apenas na versão original.
Todas estas publicação da
editora Kalandraka, respeitando um texto cuidado e a ilustração original, são
de versão normal, capa dura e folhas de papel comum o que para crianças muito
pequenas ou com dificuldades a nível de motricidade fina dificulta o virar de
página autonomamente.
São muitos os países que optam
por diversas versões quando da publicação de um livro: capa mole, tamanho para
mãos pequenas e fundamentalmente uma versão em SPC. Infelizmente, em território
luso, ainda temos um caminho a percorrer nessa preocupação editorial.
Os livros anteriormente
citados constituem-se como obras de referência a serem explorados com crianças e
jovens com necessidades educativas especiais. Apresentam na sua generalidade sintaxe
simples e linear do texto, utilizando o símbolo em reforço do texto alfabético,
com ilustração clara e descritiva sem exigir dificuldades inferenciais,
contudo, sem impedirem a capacidade de imaginação.
Uma coleção que me encanta
pela qualidade ao nível de todo o cuidado numa publicação pensada e imbuída de
respeito pelo público alvo é uma publicação de origem italiana. Trata-se da
coleção intitulada collana pesci parlanti
da editora uovonero.

Esta coleção possui vários
títulos que envolvem os clássicos dos contos e outros originais, tendo sido inicialmente
idealizados para crianças com autismo, estes livros adequam-se a crianças do pré escolar ou que iniciam a
leitura.
Sendo livros resistentes e fáceis no seu
manuseamento é possível o folhear do livro sem saltar páginas. A título de
exemplo seleciono “Biana Neve” com ilustrações de Tommaso D` Incalci.
Uma vez mais, pela qualidade
e dualidade que estes livros oferecem, não só crianças, mas também adultos
promotores destas leituras, se deliciarão na partilha destes livros versados.
Assim, fica o desejo de boas
leituras!
Bibliografia:
Barbosa,
Maria Henedina Pinto (2003). O Livro - Instrumento de Comunicação em
Crianças com Necessidades Educativas Especiais. Disseretação de Mestrado em Psicologia do Desenvolvimento e da Educação
da Criança na especialidade de Intervenção Precoce. Porto: Faculdade de
Psicologia e de Ciências da Educação – Universidade do Porto.
Castro Caldas, A. (2000). A
herança de Franz Joseph Gall. O cérebro ao serviço do comportamento humano.
Lisboa: McGraw-Hill.
Ferreira, M.C.T, Nunes da Ponte, M., Azevedo, L.M.F. (2000). Inovação curricular na implementação de
meios alternativos de comunicação em crianças com deficiência neuromotora grave.
Lisboa: Secretariado Nacional para a Reabilitação e I. das Pessoas com
Deficiência.
Nogueira, Célia (2009) Educação especial – comunicar com crianças com
paralisia cerebral. Editorial Novembro
in: rubrica Instantes Inclusivos da Revista: Educação Inclusiva (revista da Pró-Inclusão -
Sem comentários:
Enviar um comentário