quinta-feira, 8 de junho de 2017

O MUNDO DE ARTURO



O MUNDO DE ARTURO
Roberto Parmeggaini (Texto)
João Vaz de Carvalho (Ilustrações)
Editora Nós (2016) -Brasil






O mundo de Arturo é um livro que nos transporta para o universo das dificuldades de uma criança, apresentando no título o personagem principal.
A paleta de João Vaz de Carvalho de tons pastel, anuncia na capa o perfil do rosto de um menino que segura um livro. Quando o abrimos, as guardas remetem-nos para a camisola do personagem, como que impregnados, nós os leitores pela sua indumentária, consequentemente nos colocamos na pele do personagem.
Com texto de Roberto Parmeggiani, pedagogo, que conhece de perto a realidade de crianças com necessidades especiais, retrata com justeza alguns dos sentimentos vividos.
Arturo é um menino que não sabia ler e que por isso vivia amedrontado com as suas dificuldades. Gozado pelos seus colegas e entregue à sua condição de "perdedor" sentia-se incompetente perante as indicações repetidas da professora. O sentimento de perda de confiança é permanentemente revelado, quer no texto implícito da narrativa, como nas ilustrações enigmáticas que oscilam entre a dúvida e a ingenuidade infantil.
E como na vida, assim se espera, há sempre alguém que faz a diferença e que nos faz acreditar. Neste caso, o Arturo possui um tio que acredita que o sobrinho, à semelhança de um tal D. Quixote, que é visto para uns como um incompetente, pode ser um cavaleiro corajoso, livre e capaz de perseguir os seus sonhos.
Arturo, que se perde entre as letras que dançam na sua cabeça, é aos olhos do tio um poeta, um inventor de neologismos, capaz de inventar o seu próprio caminho se desejar acreditar nos seus sonhos. Um “desejador” como acaba por o denominar.
Um poeta, que deseja entre outras coisas, imagine-se, escrever um livro. O livro da sua vida, talvez. E tanto nos faz acreditar nessa premissa que ao terminarmos a narrativa, e de livro aberto, a capa e a contra capa revelam-nos a cara inteira de Arturo que segura nas mãos o livro onde na lombada se lê: O mundo de Arturo.
Uma narrativa com toda a circularidade da vida, por vezes difícil de enfrentar, mas se equipados de lanças coloridas e sacos de sonhos, poderá ser mais interessante e profundamente encantadora, de onde saem as narrativas que nos fazem acreditar que a inclusão é possível, com respeito pelo ritmo individual, e o enfoque na importância do amor incondicional quando se acredita nas potencialidades de cada criança como que nos cruzamos.

Elvira Cristina Silva


Nota: Livro de edição brasileira que pode ser comprado em:  





quinta-feira, 25 de maio de 2017

Ilumina - o novo livro de Rita Correia


Biblioteca Municipal de São Domingos de RanaRua das Travessas. Bairro do Moinho. Massapés, Tires
2785-285 São Domingos de Rana

Um livro de capa preta pode assustar? Pode, mas não quando é explorado por miúdos corajosos que não têm medo de se lançar nesta aventura.
ILUMINA é o título deste novo livro, e é exatamente isso - um verbo que incentiva à ação. Mas como? Se até as lanternas ficaram sem pilhas. E a resposta até é mais simples do que se imagina! Porque a magia dos livros torna-se possível sempre que se junta com a magia de quem os lê. E agora?! Quem se atreve a entrar num livro tão escuro... e iluminá-lo?
 
A convite da autora, a apresentação do livro caberá a Elvira Cristina Silva, verdadeira amante de livros para a infância, contadora de histórias e professora de educação especial.
 

http://www.cm-cascais.pt/evento/lancamento-do-livro-infantil-ilumina-de-rita-correia
http://ritacorreia-ilustra.blogspot.pt/2017/05/novo-livro-ilumina.html

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Cadê o carimbo?


 Renata Bueno, ilustradora, nasceu no Brasil. É arquitecta de formação e como artista plástica é autora de diversos livros para a infância.
Tendo por base carimbos, que, imagine-se, comprou em Portugal numa das suas viagens, apelidou três livros seus, nomeadamente: Cadê o cavalo?; Cadê a mosca ?; e ainda Cadê o peixe?; Coleção Carimbo, publicados pela Jujuba editora (2013).



Tive contacto com estes livros quando participou, sendo a única brasileira selecionada, na VI Bienal Internacional de Ilustração para a infância,  na Ilustrarte 2014.
Nesse contacto deslumbrei-me com estes pequenos livros, partindo de um conceito tão simples quanto potencial criativo oferecia.
Atualmente, já com os livros na mão, chegou o momento da partilha com as crianças que deram o seu  contributo de um olhar atento e imaginativo.
Cada livro, como indica o título, parte de um carimbo, depois é adicionado o traço num complemento final digital. 
Não existe propriamente uma narrativa ao longo do livro. Cada estória reside individualmente em redor de uma rima, em página dupla, ilustração num lado da página, rima do outro, não sendo constante a coerência dessa opção.
O incentivo é na procura do carimbo “escondido” no meio da ilustração, o que de certa foram tem que ser controlado pois corremos o risco de em cada página esquecer o texto, em prol da busca fugaz de um carimbo que teima em esconder-se.
A exploração das imagens é universal pelo que o público alvo destes livros não tem idade específica. Existem duplos sentidos e muito humor, quer nas rimas como nas ilustrações, possibilitando ambas um recurso de horas indetermináveis de atividades lúdicas, quer explorando a linguagem quer a expressão gráfica. A criatividade não permite certo ou errado, pelo que todas as explorações são possíveis. Por aqui a opção tem sido a de um carimbo à escolha, imaginá-lo num contexto e depois dar corpo a uma narrativa. 
Depois.... bem, depois é o que se desejar. Por aqui estamos em fase de construção de livro mas já há ideias para um puzzle gigante e jogos de memória. 
Por enquanto mais do que preocupados com o resultado final da atividade desenvolvida, o que conta é o processo. E esse tem sido muito criativo. Na vontade de carimbar e criar mais enredos, diariamente continuo a ouvir: 
"Cadê o carimbo?"


Elvira Cristina Silva

Aqui ficam alguns registos:













Nota: Estes deliciosos livros podem encontrar à venda em: 
R. Gomes de Amorim 12-14, 2710-569 Sintra, 2710-569 Sintra 


sábado, 15 de abril de 2017

7X25 Histórias da Liberdade




7X25
Histórias da Liberdade
Margarida Fonseca Santos (Texto)
Ilustrações Inês do Carmo
Gaillivro (2008)
De modo a preservar e a perpetuar a memória, este livro editado em 2008, com várias reedições posteriores, aborda a efeméride que Portugal viveu em 25 de abril de 1974.
Margarida Fonseca Santos escreve sete pontos de vista de objetos simbólicos, envolvidos na referida data, que embora de algum modo subjetivo, retratam a sequência dos acontecimentos, permitindo construir a narrativa dos primeiros momentos vividos ou os que antecederam a esse dia histórico.
Em episódios narrados na primeira pessoa, conhecemos o semáforo que parou os carros blindados guiados por um capitão, a porta do estúdio que assistiu à emissão do posto de comando das forças armadas, a espingarda que comoveu o mundo com um cravo no centro do seu cano, o lápis azul utilizado pela censura, o documento incriminatório, o megafone que anuncia a liberdade numa reunião de estudantes e o portão da prisão de Caxias que albergou os presos políticos.
A ilustração, de Inês do Carmo, numa sobreposição de recortes de texturas e cores com composição final digital, vai convocando, a par do texto, o desenvolvimento de uma possível  compreensão inferencial dos factos para que o universo da população alvo possa, de algum modo, na proximidade a elementos reconhecíveis dos seu quotidiano, perspetivar um testemunho que não viveu presencialmente, mas que a memória de um povo urge preservar no sentido de como foi possível uma revolução para “(...) conquistar a liberdade em elevar Portugal a um estado democrático” (...)" pág. 11.


Elvira Cristina Silva

in: Newsletter nº 108 Pin- Pró-Inclusão abril 2017 pág. 12

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Grande Livro dos Medos do Pequeno Rato

Grande Livro dos Medos do Pequeno Rato
Emily Graveytt
Livros Horizonte (2010)

A ideia central deste livro é espiar os medos do pequeno personagem, obviamente numa identificação análoga à do “pequeno” leitor, os medos são evidenciados através dos seus termos científicos, a par de elementos visuais com sentido de humor que parodiam a carga de drama insolúvel que se manifesta em todos os animais.
Num primeiro momento, imagina-se que a autora fez o registo de cada fobia no cabeçalho de cada página, convidando deste modo o leitor a preencher o espaço em branco, de acordo com a sua vontade e necessidade própria.
No entanto, deparamo-nos com um livro já usado e preenchido por um anterior leitor: um rato. Este, que desde o início se apresenta na capa, rasurando o nome da autora e colocando o seu, roendo um buraco no livro.
É através desse buraco que o avistamos, na companhia do lápis que permanecerá com ele ao longo de todo a narrativa, pois é com esse utensílio que irá enumerar os seus medos e de certa forma, espera-se, que os supere, como é referido na página de abertura. Lida-se com os medos através do rabiscar, o protagonista dá o mote com o lápis que sempre o acompanha. Lápis espiador dos medos, à semelhança do cobertor do Linus (personagem dos “Peanuts”). A mediação deste livro, permite, deste modo, abordar os medos, alargando a opções lúdicas.
Diversas técnicas e materiais, como desenhos a carvão, colagens de jornais, postais, mapas, fotografias, pensos rápidos e outros elementos relacionados com quedas, azares e infortúnios diversificados, ilustram os medos do personagem, quiçá, a par, também dos receios do leitor.
No final da narrativa o confronto entre o rato e a autora, conflito este que provoca a reflexão sobre o relativo e a subjetividade perante os receios individuais.  Nesta ténue conjugação dos elementos visuais que implica uma observação atenta e dedicada, encontra-se o fascínio deste livro. Todo ele numa delicada coerência, desde a qualidade do papel (textura), capa (dimensão e formato, com a particularidade de existir um buraco de onde se avista o rato protagonista da ação), até à dimensão da narrativa.
A capa, antevendo, o conteúdo, manifesta-se original, no impacto visual que oferece. Revela-nos uma janela para a descoberta, dando já uma piscadela de olho aos medos, revelados posteriormente. Assim como o adequado aproveitamento das guardas, na introdução ao tema (pensos rápidos, escadas, animais ferozes, facas afiadas...) anunciam, habilmente, uma narrativa terrífica. 
Um ponto forte, deste livro, é sem dúvida, a relação assumida de complementaridade entre texto e imagem, onde ambos os elementos coabitam no mesmo espaço e se complementam. A narrativa é feita em diversas camadas, compreendida através da ilustração, de elementos textuais e paratextuais.
O tipo de letra, assumido como sendo feito à mão, convive com letra de imprensa de recortes, mas toda essa mistura é composta de forma cuidada, não deixando o leitor confuso.
O pictórico das ilustrações e a legibilidade das mesmas, harmoniosamente colocadas com o escasso texto, remetem para uma facilidade na leitura, quer
pela sua disposição organizada na página, quer pelo imaginário e humor que proporcionam.
Um livro que se apresenta muito coerente no ritmo e na cadência que surpreendem em cada página, na cuidada ilustração e a previsibilidade do final que amainará todos os receios enumerados.
Numa conjugação perfeita de simplicidade, sendo esta a experiência subjetiva e julgamento de um observador, o leitor é convidado, através de todo o aspeto gráfico, a estabelecer empatia com o enredo (temática) e a identificar-se com a riqueza simbólica da informação, possibilitando aceder a novas experiências de informação.
A autora, cativa o seu público alvo e encanta os leitores adultos, na medida em que são perceptíveis informações paralelas, sendo neste sentido que se insere a complexa simplicidade deste livro e a capacidade para estimular a imaginação.
Versando os medos, este livro, ecoa em todas as idades (para além da faixa etária recomendada pelo PNL), pelo facto de possibilitar não só os diferentes “modos de olhar e de ver” bem como pela transversalidade temática cultural e histórica de cada individuo. Livro que, muito provavelmente, se ficará com algum receio de o perder!


Elvira Cristina Silva

in: Newsletter da Pin- Pró-Inclusão (março 2017) pág. 11