quarta-feira, 4 de março de 2015

O Caderno do Avô Heinrich

O Caderno do Avô Heinrich
Conceição Dinis Tomé
Editora Presença (2013)

Num tempo conturbado, em que as nações, aparentemente, se unem pela liberdade de expressão, importa lembrar, aludir à memória. As guerras constantemente vividas, ódios inexplicados, relações impossíveis determinadas pela diferença, permanentemente atuais, razão na qual reside também a atualidade deste livro. 
Nele, o narrador coloca os personagens principais num cenário humano amotinado por situações dramáticas que nos transportam à Polónia, durante o período de domínio de Adolf Hitler. Um cenário de uma guerra, mais concretamente o início da segunda guerra mundial, mas que, pode ser qualquer guerra...
Relato de amizades possíveis na diferença (neste caso, entre um alemão e um judeu), amizades não permitidas pela intolerância de regimes que a civilização humana revela no seu pior estado. Conto escrito por Conceição Dinis Tomé, bibliotecária, no qual através de uma ode aos livros e à palavra, expressa os afectos verdadeiros e essenciais do ser humano como solidariedade e amizade, a capacidade de apreciar a beleza em coisas simples, mesmo quando parece que a vida se aproxima do seu término. Memórias de um tempo de preconceitos e barbáries que é preciso lembrar, dolorosamente, sempre, atual.
Livro vencedor do Prémio Literário Maria Rosa Colaço 2012, na qualidade de literatura juvenil, atribuído pela Câmara Municipal de Almada.  Recomenda-se, por todos os motivos, a sua leitura em qualquer idade. 



Elvira Cristina Silva

in: Sugestão de leitura Newsletter nº 80  pág. 11(janeiro 2015 - 2.ª quinzena) Pró Inclusão 

Instantes Inclusivos - Viagens à Roda dos Nomes

Viagens à roda dos nomes

Desfrutar de um livro é sempre uma viagem, desta vez, é literal pela peculiaridade das autoras abordadas, ambas responsáveis pela narrativa em simultâneo com a ilustração, de um modo muito singular. Ambas são cúmplices na realização autónoma das suas criações. Ambas mencionam nomes como títulos nos livros abordados, exibindo no seu interior uma mensagem de fruição estética, muito mais vasta do que se poderia  esperar, da contemplação do mundo que nos rodeia. Ambas nos conduzem por uma viagem de descoberta e aventura. No primeiro caso, estórias de viagens, no segundo uma permanente viagem. Em ambas as viagens de cada um de nós, da nossa identidade e do nosso papel entre os demais.
Margarida Botelho, com formação em Arquitetura, fazedora de histórias/ mediadora, como ela própria se intitula, constrói as suas histórias em tridimensionalidade, imagem criativa que lhe é peculiar, criações plásticas em volume, construídas com materiais diversificados e reciclados, intervencionados por técnicas fotográficas que culminam nas ilustrações finais desafiantes para o leitor. A expressividade dos rostos das personagens tem como base fotografias reais, assumindo assim, uma maior cumplicidade  na proximidade com a narrativa.
Partindo da sua experiência inicial do projeto “Encontros”, que teve como produto final o objeto palpável de livro, pois muito existe para além do objeto livro, a autora/ilustradora, reproduz os acontecimentos vividos nas suas viagens, onde os afetos são permeáveis e quase sentidos na epiderme de quem os lê, contaminados que estão, de fabulosas experiências reais.
Nos três livros da coleção POKA POKANI, o título de cada livro é o nome de uma criança, mas que afinal são duas, num jogo paralelo e simultâneo de vidas que estão apenas separadas geograficamente. As personagens que surgem de duas capas distintas, como se de dois livros se tratasse, seguem o seu percurso individual, cruzando-se como num jogo de encontro, nas páginas físicas centrais dos livros onde se desvenda um tabuleiro de um jogo semelhante ao jogo da glória.

“Eva/Eva “(2011)
Resulta da estadia em Moçambique durante nove meses, num campo de refugiados que constituiu o ponto de partida inicial do projeto, com o apoio da Unesco. Apresenta a dualidade de culturas (Europeia/Africana) no seu quotidiano de constantes contrastes e permanente adaptação, consoante as diferentes geografias.

“Yara/Iara” (2012) é o segundo livro da coleção, desta vez com mais um elemento na equipa, Mário Rainha Campos. Resulta da viagem de ambos a Kararaô, aldeia indígena da etnia kayapó na bacia do rio Xingu na Amazónia, no estado brasileiro do Pará, local ameaçado pela construção da central hidroelétrica. Na continuidade do projeto, este livro, documenta duas culturas (Europeia e Brasileira) e tal como o anterior remete para uma viagem em lados opostos do livro para o encontro final.

“LIA/LYA” (2014) é o terceiro livro da coleção, neste caso reflexo da viagem até Atecru, aldeia piscatória isolada, situada na costa norte da ilha de Ataúro, em Timor-Leste. Em coerência com os anteriores livros o paralelismo de culturas num jogo final de encontro.

As 3/6 protagonistas destes livros são crianças que partilham de algumas atividades comuns, brincam, vão à escola, têm uma família, em síntese, retratam um quotidiano de culturas com vivências antagónicas criadas pelos diferentes contextos.
Aborda-se a questão das diferenças socioculturais, nomeadamente entre o mundo ocidental e o protagonizado por cada uma das personagens documentadas nos três livros, através de experiências infantis, em muitos casos comuns, apresentadas em analogia. Histórias contadas em separado, ou em paralelo, que desembocam e se cruzam uma na outra, celebrando a riqueza da diversidade, a importância do outro, a identidade, a partilha, as diferentes linguagens que singularizam e polarizam a diferença, na compreensão de outros ritos, costumes e culturas. 
A ilustração de páginas duplas traçam diferentes trajetos únicos, sequências de momentos da vida de cada uma das protagonistas, permitindo aos leitores quase um relato cinéfilo das narrativas acarinhadas com pessoais reais. Notória homenagem às comunidades rurais, na linguagem dos afetos fiel à leitura do mundo real. Livros preciosos, construídos de palavras e imagens, materializadas nas vivências antagónicas em diferentes contextos de um mundo real, ainda desconhecido, para a grande maioria das pessoas. Cada personagem é um de nós, que se descobre em semelhanças e assimetrias e tem um mundo novo para descobrir.
A aquisição destes livros podem ser feitos em www.prodidactico.pt/ ou em www.margaridabotelho.com/pt/



"O meu nome é" ...
...aquele livro que nos enche do nome que é feito!
Depois de “Um livro para Ti” (livro abordado no artigo da revista anterior), Rita Correia, continua a surpreender o leitor com mais um livro jogo, ou direi mesmo, um livro surpresa. Em forma de adivinha, conduz-nos à descoberta de um nome inspirado num poema de um poeta brasileiro. Indícios que estão nas palavras (em rimas) e nas ilustrações (colagens, desenho e pintura) que remetem simultaneamente para o provável nome de alguém, mas também presente na  natureza que nos rodeia e no quotidiano de alguns dos nossos dias. As letras do nome procurado estão escondidas sequencialmente em nove páginas duplas, onde se evidenciam a linguagem dos afectos, a relação com a família, o respeito pelos animais a par, evidentemente, da expectativa  do nome que se busca.
Este livro, possui, tal como o anterior, atividades e jogos, permitindo por exemplo construir um pop-up, seguir um mapa do tesouro, construir um puzzle gigante, contendo ainda cromos disponíveis no blogue, onde  também é possível encontrar canções criadas para o efeito. Uma chamada de atenção para as guardas finais, onde mais uma vez existe um pequeno jogo, remetendo para a importância da identidade.
De referir também, o pormenor da capa revelando o nome procurado, mas que só um olhar atento o descobre a brilhar na luz! Uma palavra bem visível para os que não estão distraídos, aparentemente escondida de modo a permitir-se a descoberta de um jogo. Um detalhe! Pormenor que nos transporta para o nome de que é feito este livro,  e que em simultâneo nos enche daquilo de que é feito. Entre outras palavras, viajamos pelas palavras dos afectos e sobretudo no acreditar, palavra comum em ambas as autoras mencionadas neste artigo, que concebem os seus projetos com o nome deste livro.  O nome procurado está lá, mas tem que ser visto com “olhos de ver” , nas entrelinhas, e é esse o deslumbramento, viajar nas pistas dadas ao longo do livro, numa poesia exacerbada na ilustração que completa o formulado num caminho aberto de interpretações aos sentidos dos leitores. É neste espaço de jogo permanente e imaginação que somos conduzidos num fio condutor narrativo desde a capa à solução final, na circularidade, uniforme e coerente, na relação texto e ilustração, que contamina o prazer da descoberta e da leitura, perdurando o jogo estético e narrativo.
São livros que revelam um outro olhar sobre o quotidiano, sobre a diferença e a vida das pessoas, convocando, assim, todo o potencial imaginativo do leitor, surpreendendo e provocando, através de um jogo permanente, para a contemplação do mundo que nos rodeia, onde as ilustrações são um manancial de reforço à narrativa e fruição estética.


Elvira Cristina Silva 


Fotos de EC Silva

O Meu Nome É…

Texto e ilustração de Rita Correia
Edição de autor
(os interessados devem encomendá-lo em: ritapcorreia@gmail.com )


terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Pequeno Livro das Coisas

Pequeno Livro das Coisas
de João Pedro Mésseder      
Ilustração: Rachel Caiano 
Editorial Caminho (2012)

O título, por si, poderia considerar-se esclarecedor, abordam-se as coisas que nos rodeiam no quotidiano. Contudo, por isso mesmo, habituados que estamos de as ver, na maioria dos casos, não as olhamos com  “olhos de ver”. Neste livro, porém, elas são observadas com um sentido visual apurado, são objetos olhados para além das suas finalidades práticas, numa poesia que exacerba a fragilidade das coisas, e das pessoas, numa passagem efémera. Um olhar atento e poético de ver o mundo que já nos é conhecido do autor João Pedro Mésseder, pseudónimo literário do escritor e professor universitário José António Gomes.
Uma obra de poesia, em muitos casos, temática minoritária escolhida na mediação do livro infantil, contudo, apreciada pelo seu público alvo na cadência e no caminho aberto de leituras a que convida. Um “pequeno livro” enuncia o título, remetendo-nos para um sinónimo enganador, aliás, porque o não dito, nesta obra, é o mais importante. Enaltece-se o formulado num caminho aberto de interpretações aos sentidos dos leitores. É neste espaço de imaginação diegética que se exalta a indagação permanente.
De modo singular, a ilustração, sóbria na escolha de cores, evidencia até,  por isso mesmo, um fio condutor narrativo num elo de circularidade, uniforme e coerente. Circularidade, criada também na narrativa, que nos envolve entre sombras que nos acolhem e invadem e objetos que se polarizam. As ilustrações de Rachel Caiano, essencialmente a lápis de carvão com toques ocasionais de amarelo, vermelho, azul e verde rompem como focos de luz alargando o imaginário estético visual.
A conjugação delicada deste livro, na dupla leitura entre poesia e ilustração, resulta numa cativante e inevitável beleza natural e estética que aclara o prazer essencial da leitura, aditando e perpetuando o sabor das palavras para além da sua redundância.
Merecidamente, esta obra venceu o Prémio Bissaya Barreto de Literatura Infantil 2014, prémio, atribuído bienalmente, que comemora a sua quarta edição.

Elvira Cristina Silva

in: Cadernos de Educação de Infância nº 102 (maio/agosto 2014)