segunda-feira, 15 de julho de 2013

Instantes Inclusivos


Falar sobre a literatura infantil é um tema vasto, por um lado nada inóspito, pois existem imensas visões e pontos de vista, mas por outro lado um visão redutora de que é exclusividade do público infantil.
Erro crasso. A literatura infantil na sua dicotomia foi desde os tempos mais remotos, contos que pertenciam ao mundo dos adultos mas que as crianças, sábias como sempre, deles se apropriaram.
A sociedade foi sofrendo mutações e hoje, sabemos que muitos adultos apreciam um bom livro infantil, capaz nos levar a qualquer lado, com ele viajamos e olhamos o mundo mesmo sem sair do lugar ou aguçando melhor a vontade de o descobrir.
Porque  existem sempre diferentes  formas de ver e olhar o mundo... olhar e ver são coisas que embora pertencendo ao sentido da visão e possam coexistir, por vezes, manifestam-se numa relação de subalternidade de uma em relação à outra. Porque, em muitos casos, o olhar passa como exercício de sentido da vista, meramente sem a capacidade de ver no sentido de contemplar o objeto livro e de por consequência ponderar sobre o seu valor, quer estético, quer pedagógico.
Todos sabemos que não é propriamente o texto literário e o material usado pelo ilustrador que determinarão a qualidade do trabalho mas em muito poderão contribuir para que alguns livros se tornem especiais promovendo momentos únicos e irrepetíveis com os quais nos identificamos pelo conhecimento e experiência ou, em alguns casos pela falta de ambos,
Ao nível pedagógico perceber que ao agir e escolher, não tendo apenas uma visão única destas obras (porque existirão sempre outras visões que habitam o mesmo espaço), não se está a agir ao acaso.
Falar de literatura infantil não é uma coisa de brincar, mas sim uma coisa séria, ou como refere Manuel António Pina, no seu livro: O inventão, (Editora: Asa) “As coisas sérias que cómicas que são”.
Se falar de literatura infantil é já uma ousadia, abordar a diferença neste contexto é outra façanha. A diferença é algo maravilhoso que todos temos em comum, o que por uma lado pode parecer um afunilado ponto de vista seletivo, mas que ao invés, revela uma alargada possibilidade de escolhas.  De diversidade está o mundo cheio e a literatura infantil não seria exceção na arte de a contemplar. Audácia sim ,é descobri-la de modo sublime. 
Há, de facto, quem veja o mundo em prosa, outros em poesia. Há mesmo quem não o veja com palavras, falhando a nomeação das coisas, ou eventualmente a sua compreensão.
Penetrar no mundo da Literatura Infantil é ver o mundo para além da prosa, sim, porque mesmo em prosa muitos dos textos são perfeita poesia. Noutros casos, há mesmo quem não precise de texto, porque a imagem vale mais que muitas palavras. Compreender o mundo passa muito mais que a compreensão comum, passa pelos afetos e pelos sentidos e esses são cheios de truques para além da compreensão.
Procurar a diferença na Literatura Infantil, ausente de paternalismos  e de valores morais recheados de clichés é obra de ourives, mas é possível, pois a Literatura Infantil está recheada de preciosidades a descobrir. Claro que não se descobrem por acaso, tal como em busca do ouro é preciso manusear alguns rochedos para se descobrirem as pedras preciosas. Descobrem-se entrando num mundo de analogias e metáforas que permitiu à génese humana crescer e defrontar o mundo, nas mensagem do crescimento, da provação à passagem para a idade adulta. É intrinsecamente o valor da diferença. Porque cada um de nós deles se apropria...
Sendo cada um de nós todos diferentes torna-nos únicos e por isso mesmo especiais. Esta rubrica pretende abordar uma seleção de livros descobrindo mais sobre as diferenças que nos unem.
Descobrir, por exemplo, alguns poemas na obra Tantos meninos diferentes e todos surpreendentes, de Maria Teresa Maia Gonzalez (2011; Editora Texto – Lisboa- Portugal; com Ilustrações de Inês do Carmo)
Ou El cazo de Lorenzo de Isabelle Carrier (2010- Editorial Juventud – Barcelona – Espanha) Um menino diferente oculto por um tacho de preconceitos.
Visitar "Um livro para todos os dias", Isabel Martins com Ilustrações de Bernardo Carvalho (2004) da editora Planeta Tangerina - a saber Editora premiada como melhor editora europeia, na recente Feira do Livro Infantil de Bolonha.
Neste livro refere-se que há dias para lembrar dias que são uma confusão e entre muitas outras coisas há dias em que precisamos de abraços. Elementar!? Pois deveria ser, mas nem sempre o é.
Deste modo, a literatura infantil constitui um permanente estímulo de ingredientes inclusivos para todos e sobretudo aos adultos, muitas vezes distraídos e arredados do mundo, que já não o concebem de forma tão poética.
Se olharmos o livro "Quando a mãe grita", Jutta Bauer (2006) – Editora  Gatafunho, descobrimos que qualquer um de nós, em reflexo de espelho com a personagem, quando nos gritam, tudo se desmorona … e sentimo-nos à deriva, perdidos.
É impossível não nos enternecer esta história de sentimentos e afetos, livro ao qual não se ficará, por certo, indiferente. Por vezes esquecemos de como falamos e agimos com o outro.
Experiência, atenção e afecto.  Espaço ideal para a narrativa capazes de servir de modelo às nossas vidas.
E, por hoje, ficamos por aqui, nesta minha tentativa arriscada de dizer que simbolicamente a literatura infantil se aproxima mais do adulto do que se imagina.
Certa de que encontrarão muitos outros ingredientes para incluírem em cada um dos vossos dias.
Despeço-me até um dia destes.

Elvira Cristina Silva

 in: 
Revista Educação Inclusiva Vol. 4 - nº 1- maio 2013





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