quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Instantes Inclusivos

Instantes Inclusivos   

Continuando na senda de abordar a literatura infantil como meio de nos conduzir e olhar o mundo e o outro, procuro neste espaço, refletir sobre o objeto livro e de, por inferência, ponderar sobre o seu valor estético e pedagógico descobrindo mais sobre as diferenças que nos unem.
Em El cazo de Lorenzo de Isabelle Carrier (2010- Editorial Juventud – Barcelona – Espanha), já mencionado tenuemente no número anterior, a diferença está numa criança a descobrir por detrás de um tacho que transporta consigo. Ilustrações pouco elaboradas, sem grandes cenários com cores constantes e pouco variadas, enfatizam sobretudo as características individuais e vivências do personagem principal. As guardas “aparentemente” simples e despretensiosas necessitam de um olhar atento para descobrir o que coerentemente nos revelam. Como alguém, sem que se mude nada, apenas evidencia os pontos fortes para sermos como os demais.  A subtileza deste livro reside na força da mensagem do texto, a par de pequenos pormenores nas ilustrações que o transformam num arrebatador e inesquecível momento.
Se só vemos a diferença no outro como perturbadora, não conseguimos aproximarmo-nos das semelhanças que nos unem. A  sensação de ser estranho, de ser diferente, na forma como se é olhado na sala de aula, no  recreio, no quotidiano. Tal como em  Eloísa y los bichos com texto de Jairo Buitrago e ilustrações de Rafael Yockteng (2012 – Jinete Azul)  ambos os livros constituem uma reflexão sobre coisas novas, especialmente face ao desconhecido.
Falando de medos e de aprendizagem, de estranheza, abordando costumes, de rejeição, mas sobretudo de amizade, na aceitação plena do outro. Neste livro as ilustrações exacerbam o texto com um forte impacto, a começar logo pelas guardas com ilustrações que revelam as fotos dos seres estranhos e bizarros com que convive a personagem Eloísa. Um livro que apela à importância de nos enquadrarmos em novos lugares, adaptando-nos ao que no início surge como desconhecido sem que por isso se esqueçam as origens.
De pouco texto, discreto na ocupação do espaço, é um livro lindíssimo na completa acepção da palavra no que se refere à dicotomia de mensagem e design gráfico, constituindo-se com uma obra de arte para quem dele disfruta.

Frederico, de Leo Lionni, editado em Portugal pela Kalandraka em 2009, remete numa prosa poética para a aceitação da individualidade e de liberdade do outro. A estranheza de comportamentos que se diferenciam na fidelidade ao próprio e às suas convicções. Nesta obra é dado o enfoque da necessidade das palavras, da poesia, da arte em geral, como essencial para o bem comum, a par da alimentação. Porque todos somos diferentes e precisamos uns dos outros, independentemente das nossas escolhas e atos. Na simplicidade de texto e imagem, Leo Lionni faz, como sempre em todas as suas obras, um grito à individualidade e, nesta obra em particular, consegue que os mais empedernidos se apaixonem por um pequeno poeta.
Para remate deixo uma outra preciosidade deliciosamente terna com ilustrações talentosas. Eu, Ming (2002) Clotilde Bernos (texto) e Nathalie Novi (ilustrações). Editora: Âmbar
“Eu poderia ter nascido... no Reino de Inglaterra...ser um crocodilo...ter sido...”
Enfim, desejos e sonhos do que se seria se não se fosse o próprio. O que se faria com outros atributos, domínios e capacidades, decretar obediência e tomar conta de todo o planeta...
Mas somos o que somos, mais ninguém. Só o que somos nos permite o contacto com quem já nos conhece e/ou redescobre.

Mais do que queremos ser, o que fazemos com o que temos? Sermos possuidores da felicidade se discretamente nos entregarmos aos outros, apaixonadamente. Mesmo que assinemos a prova da nossa existência em palavras pequeninas.




Elvira Cristina Silva

in: Educação Inclusiva vol. 4. nº 2 dezembro de 2013 (pág 29 e 30) Revista da Pin-ANDEE - Pró-Inclusão: Associação Nacional dos Docentes de Educação Especial




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