terça-feira, 19 de novembro de 2024

"Presente" de Rita Correia

 


Eu, pessoalmente, entre outras coisas, encontro presentes nos livros e sempre acreditei que isso orientaria a minha vida. Com eles tenho vivido momentos únicos e foi através deles que tenho conhecido pessoas fantásticas, uma delas, obviamente, foi a Rita, pessoa com quem nutro um entendimento, de certa forma simbiótica no modo de ver a vida. A convite dela, apresentei este seu livro no dia 19 de maio de 2024.

Presente de Edição de autor (2024), 7 (sete) anos depois da publicação de  "Ilumina", desta vez o livro azul, o quarto livro de autor da ilustradora Rita Correia

A temática não será logo de leitura automática e literal, mas a autora já nos habituou a ter que pensar para entender os seus livros e faz muito bem. Os livros da Rita não são simples nem ingénuos, antes pelo contrário, são de uma complexidade que não se podem (como um bom livro) ler/manusear só uma vez. Acumulam camadas de pormenores subtis, quer a nível gráfico, como a nível textual e paratextual.

Os pequenos detalhes em cada página, só para leitores atentos, (a presença de elementos de outros livros da autora; pequenos elementos que se repetem) a mobilidade do livro na sua leitura/utilização, os jogos e mapas sempre existentes na sua obra.

Na sociedade atual, em tempos conturbados, é premente questionarmos o equilíbrio e a ligação com a natureza, na premissa de que estamos todos ligados. Um presente como uma dádiva da vida.

Nas guardas estamos já imersos em mistério nas palavras que se entrelaçam nas nossa vidas, na comunhão com o outro, a natureza e os animais.

É com o outro que a autora/ilustradora se envolve, desde sempre, valorizando cada um de nós e o outro, porque não existimos sozinhos, como refere na dedicatória na ficha técnica.

Realce para a constante presença de livros (da autora e de outros), pois somos feitos de narrativas, as nossas e as que lemos, onde reside na verdade a magia da vida. E esta, infelizmente, não sendo infinita, convém, que dela, se viva o presente.

Não sei, na realidade, como vai ser o futuro, mas tenho comigo o Presente - e é isso que devemos valorizar. Palavras que nos ligam no tempo/espaço - o mundo inteiro cabe dentro deste livro com todas as palavras que cada um de nós escolhe no caminho que fazemos.

 ritapcorreia@gmail.com | http://www.ritacorreia.com

 

quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Instantes Inclusivos - Animais e outros seres como personagens principais do enredo

A abordagem aos animais, a sua personificação, as perdas ou a sua adoção são um assunto recorrente na literatura para a infância. Aqui se destaca, nesta rubrica, algumas publicações de livro ilustrado envolvendo o mundo animal.


Faísca - a história de um encontro para a vida

de Guojing

Baduga (2022)

 Depois de Only Chid , livro ainda não publicado em português, chega-nos este segundo título desta ilustradora, através da recente e criteriosa editora Baduga.

Uma narrativa gráfica de ilustrações muito realistas, que nos conduz num enredo quase cinematográfico, acompanhando os encontros entre uma rapariga e um cão.

Toda a delicadeza usada na “lente” da paleta, quase fotográfica, transmite-nos secretamente num envolvimento permanente na narrativa, onde se aborda a perseverança, a confiança e a amizade de um modo inigualável, através do modo como os personagens interagem, criando no leitor o permanente desejo de um desfecho feliz, que ao contrário do original, o título em português, desvenda logo inicialmente.

Um livro sem palavras, com opções gráficas muito impactantes, sublime e encantador ao nível estético, que não deixará ninguém indiferente depois de o contemplar.

 


Miau!

de Joana Estrela

Planeta Tangerina (2022)

Tal como o livro anterior, também este se apresenta como uma novela gráfica sem texto. Apenas nas guardas iniciais existe uma breve introdução à obra, onde o leitor pode decidir os nomes dos personagens felinos.

Numa paleta monocromática com predominância da cor azul a narrativa revela ao leitor a dinâmica de uma casa onde habitam dois gatos e uma criança, mostrando como humanos e animais convivem e interagem. Um livro ternurento, com ilustrações simples muito cuidadas, com formato para mãos pequenas, de leitura autonóma ou a pares, evidencia o conhecimento dos hábitos e diabruras de quem convive com felinos que fazem parte da família.

Pormenores delicados, como devolver pequenos aracnídeos à natureza ou pequenos momentos de afeto são relevantes na narrativa circular, claramente fundamentais na nossa relação com a natureza como parte integrante de um todo, inspirados no projeto CLAN – Human-Animal Studies que aconselho vivamente a visitar.

 

Cocuruto

de Clara Cunha

Ilustrações de Vitor Hugo Matos

Livros Horizonte (2023)

 Da autora do famoso Cuquedo, o Cocuruto provavelmente irá dar que falar. Um personagem só avistado por crianças atentas, e evidentemente, talvez por leitores adultos muito perspicazes.

Encontrar Cocurutos talvez não seja comum, pois são raros, e ao que parece são inteligentes com poderes especiais e só se revelam se acreditarmos neles.

O narrador deste livro, protagonista da narrativa a par da ilustração, conduz-nos num mundo da infância brincando com o imaginário e o crescimento da autonomia das crianças.

Uma narrativa divertida e reconfortante, facilmente recebida pelas crianças, com uma estrutura gráfica muito peculiar com atenção aos detalhes paratextuais.

Conta bem que o sono vem

de Mafalda d´Oliveira Martins

Livros Horizonte (2023)

Tratando-se de uma artista ligada à pintura, esta autora/ilustradora logo nos remete para uma galeria de arte, através das suas ilustrações, onde a narrativa da contagem, em duplo sentido, nos remete para o período do sono.

Logo nas guardas, o papel de parede, que nos contextualiza a localização da narrativa, acompanhado de uma paleta de cores quente, remete-nos para o lugar tranquilo e aconchegante do quarto, onde a contagem para a vinda do sono se desenrola. Para além da habitual contagem de carneiros, o coelho (que surge logo na capa) vai sugerindo soluções à criança protagonista.

E é precisamente o coelho, de seu nome Bolacha, nome de si já apetecível numa narrativa de rotinas da infância, que numa mudança súbita, acompanhada também ao nível da paleta de cores, encontra finalmente o caminho para o sono do protagonista.

Um livro delicioso, com um título de duplo sentido da palavra contagem, na enumeração das rotinas, encerrando em si a ternura da infância que se cruza na tranquilidade visual e textual. Um livro para observar várias vezes, com inúmeras camadas de leituras.

Um leão Uma cadeira Uma praia

Marco Taylor(2023)

Não sendo a primeira vez que falo deste autor/ilustrador, com diferentes livros e abordagens múltiplas, Marco Taylor volta a surpreender, desta vez, com um livro objeto de narrativa circular, em formato de acordeão que se transforma nas inúmeras estórias que o leitor quiser criar.

Partindo de um personagem, (que pode ser ilustrado pelo leitor), um objeto e um local, a narrativa é oferecida ao leitor numa caixa, onde as “páginas” se ligam por ranhuras. Ranhuras essas, que podem ser colocadas em diferentes opções/posições, possibilitando desse modo combinações várias para diferentes narrativas ou podendo mesmo, criar mais “páginas” ao livro original.

O pouco texto, proporciona a dinâmica para a construção de frases mas é arbitrária a sua utilização. Pode ser utilizado como um excelente recurso para incentivo para escrita criativa, para criação de poemas ou de Haikus, como ligação a outras obras ou atividades.

Um manancial criativo a que o ilustrador já nos habituou, onde as crianças facilmente reconhecem o humor e o absurdo.

Acrescento ainda a possibilidade deste livro ser usado em conjunto com o próximo livro do mesmo autor e formato a sair em 2024: Uma pulga Uma colher Um jardim.

Por ser edição de autor, podem adquirir este e outros títulos no site do autor onde foi retirada a foto do referido livro: https://www.marcotaylorautor.com/


in: in: pág. 59-61 Revista Educação Inclusiva Vol. 14 - nº 1 e 2 - 2023

https://proandee.weebly.com/revista_v14n1e2_2023-188997.html