segunda-feira, 11 de abril de 2016

Instantes Inclusivos ... por um lugar para todos


No trâmite de livros que abordam a diferença, sabendo-se, à priori, que esta faz parte da heterogeneidade do ser humano e tendo o objetivo de se considerarem de leitura acessível para todos, abordo, desta vez, mais um conjunto de livros.

No primeiro caso, livros que incluem DVD com Língua Gestual Portuguesa. Todos da autora/ilustradora Marta Morgado, da Surd'Universo: uma editora para surdos, com livraria online (http://surduniverso.pt/) que disponibiliza materiais sobre a surdez, sendo as fundadoras da editora, Marta Morgado (Surda e professora de LGP) e Mariana Martins (professora de Português).


Em 2007 publicam “Mamadu – o herói surdo”
Conta o percurso de uma criança que, para frequentar uma escola em Portugal, tem que se privar de viver com a família na Guiné. 
O personagem principal, Mamadu, será ele próprio transformador da vida de outras crianças ao tornar-se professor no regresso à terra natal. 
O livro inclui DVD com a estória em LGP e ainda oito relatos de surdos que viajaram de África para estudar numa escola de surdos. Uma união bem conseguida de texto e imagem, pautando-se esta por pintura em papéis texturados, num equilíbrio harmonioso de espaçamento para a apresentação de texto. 

Em 2009, “Sou Asas” conta a estória de Joana, criança surda que frequenta uma escola de ouvintes e a sua passagem para a aprendizagem de Língua Gestual. O livro inclui DVD com estória em LGP.

Em 2012 “Luanda Lua”, a personagem de narrador autodiegético e omnisciente é feita através de uma cadela adoptada por uma família que vai crescendo. 
Baseada em factos reais, o fio condutor da narrativa foca a questão da parentalidade em famílias com duas mães. Um testemunho inclusivo em vários domínios, onde os afectos são a fonte da inclusão plena. Focando a vida privada da autora, o que se constitui já como um ato de ousadia, tem o mérito de alertar a sociedade para a diversidade nos seus múltiplos aspetos. Ilustração de técnica mista, com uma apresentação bastante coesa e ritmada na utilização dos materiais a par da narrativa. Inclui DVD com a história contada em LGP (versão áudio e com opções áudio e legendas) tendo de fundo as páginas correspondentes).

                     

Em outubro de 2013, numa coleção intitulada Mãos de encantar, título de coleção exclusiva para a autora Paula Teixeira (interprete de Língua Gestual Portuguesa), é publicado “O som das cores” com ilustrações de Rita Correia (a ilustradora deste ano da revista Educação Inclusiva).

A personagem Mariana é amiga de Tomás, uma criança cega, para quem vai arranjar modo de fazer sentir o som das cores. Ao longo do livro, estas são mencionadas nas ilustrações em língua gestual portuguesa (LGP). O livro contém os abecedários em LGP e uma página em Braile. Inclui um DVD com o vídeo da música original feita a partir da história. O DVD funciona também como audiolivro, pois a história é contada em LGP e sonorizada.

No segundo título da coleção, a Mariana e o Tomás apresentam a Carolina, a menina que anda de cadeira de rodas. Este livro possui imagens de animais e respetiva leitura em braile. Inclui DVD com estória, música, números, animais e explicação da construção de dobragem de uma flor de papel.
Ambos os livros apresentam um texto um pouco extenso. O segundo livro aparenta ser mais apelativo junto das crianças, talvez pela relação que estabelece com os animais. 
Em ambos apresenta-se a biografia da autora, face a essa opção, peca pela ausência de biografia da ilustradora o que constituiria um pormenor de equilíbrio na coleção. Na ilustração de Rita Correia predomina a aguarela e graffiti em papel texturado e composição digital.


Na sequência da coleção “Meninos Especiais” da Associação Pais em Rede, foram apresentados, no mês de novembro de 2015, os três novos títulos da coleção, dando, assim, continuidade aos anteriores seis títulos publicados (já abordados no número anterior da Revista Inclusiva), onde os personagens principais das estórias espelham uma viagem por cada criança real com determinada problemática e a dinâmica na respetiva família. Os autores e ilustradores convivem com cada família e seu quotidiano, materializando-os.

Só o texto de Isabel Minhós Martins: “O fácil que é difícil e o difícil que é fácil” ilustrado por Vasco Gargalo, com base num caso real de Síndrome de Asperger, assenta num texto fictício, assegurando desse modo o anonimato do personagem, bem como da família. A ilustração apresenta formas geometrizadas com nivelamento tanto a nível anatómico como da palete de cores.  A narrativa apresenta uma cadência sucessiva dos acontecimentos do quotidiano de Eduardo de uma forma humorística.


Cinco dedos de uma mão” de Rita Ferro, ilustrado por Rita Roquette de Vasconcelos, numa ilustração que assenta em contornos a preto, excessivamente limpa, sem texturas, de cores planas ausentes de sombras, espelha a estória do Miguel que tem Síndrome de Morsier e conta a narrativa afetiva da família. O título remete para o número de elementos da família, numa abordagem metafórica da diferença de todos os dedos que temos da mão (onde se incluem os pais, o irmão Marcelo que apresenta diagnóstico de hipertividade e défice de atenção e ainda o irmão mais novo, recém chegado à família) .
Que aventura ser Matilde” aborda a doença raríssima de Síndrome de Pitt-Hopkins. O texto de Rui Zink dá voz à personagem principal, numa narração enquanto observador de um quotidiano prático, convertendo-o num realismo mágico. A ilustração de Paula Delecave faz uma abordagem que lembra a série canadiana de animação “Angela Anaconda” quer na utilização de recorte de fotos da protagonista como da palete de cores escolhida. 
Em todos os livros, o objetivo comum de identificar características que espelham a diferença do ser humano. A normalidade é um mito e a diversidade uma constante. Todos nós, sem exceção, apresentamos fraquezas ou fragilidades, a par das características comuns. 


Realidades que se patenteiam nestes livros que pretendem promover a inclusão social, numa procura de contrariar o estigma da diferença olhando e respeitando o outro nas suas peculiaridades, num direito claro que todos temos. A simplicidade de olhar o outro, porque as diferenças existem e é necessário respeitá-las.  

Elvira Cristina Silva

(dezembro 2015) - páginas 33-34) 

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