Em tempos natalícios corre a azáfama e nela a procura de
livros relacionados com o tema. Inúmeros são os títulos que incidem ou que circundam a
temática. A opção nunca é fácil. Na
minha preferência estão os que se elevam para além do tema, tecendo o fio das
palavras e dos afetos, sacudindo as mentes com as questões da vida para além de
um marco anual. Num registo que medeia a comemoração num tempo que se apela à
importância da família, à partilha e à dádiva percorre-se eventualmente um
tempo do percurso da infância que desaparece depressa demais. É nesse tempo da
memória de infância, dos tempos mais demorados e bucólicos, misturados com os
cheiros e das correrias próprias da infância, que recaem as minhas escolhas.
Abordando o natal agitando os apegos e apelando à reflexão natural
das coisas, muitos são os livros que brincam com os mistérios do pai natal e a
sua própria existência.
Exemplo disso é o
hilariante Sabes, Maria, O pai Natal não existe de Rita Taborda e Luís
Henriques. Caminho (2008).
Com humor e sentido critico Rita Taborda Duarte transforma um
assunto cliché numa deliciosa trama psicológica. No seio familiar, um irmão
quebra o deslumbramento da existência do velho de barbas brancas, questionando
não só o imaginário infantil que existe em todos nós, como coloca a questão da
identidade e reconhecimento do próprio pai natal. As ilustrações de Luís
Henriques, numa linha gráfica de tinta da china e utilização de lápis, que tão
bem completam habitualmente a mestria humorística da autora, transporta-nos
para alguns ambientes isotéricos que adultos mais atentos reconhecerão. As
crianças, essas, não ficarão indiferentes, quer a toda a teia textual, como ao
inesperado final que se deseja numa narrativa reflexiva que efetivamente
sossega e clarifica as nossas dúvidas e satisfaz os nossos desejos e crenças
mais fervorosas.
Dúvidas que a existir, em muitos casos, são as crianças que
explicam aos adultos. É o que acontece em:
Eu sei tudo sobre o pai natal
de Nathalie Delebarre e Aurélie Blanz. Editorial Presença (2010)
Livro no qual, o
narrador autodiegético, contrapõe as afirmações e dúvidas dos adultos, relatando,
enquanto observador do mundo que o rodeia, os seus pontos de vista sobre a
existência do pai natal. Numa ilustração contemplativa e mágica a narrativa da
imagem acompanha os pontos altos da descrição textual numa circularidade
perfeita entre inicio e fim da história que as guardas nos oferecem.
Humaniza-se a personagem idolatrada do pai natal com tudo que
de humano e místico ele possui. Porque afinal é um personagem de carne e osso,
tal como nos remete a narrativa do livro:
As férias do Pai Natal de Lourdes Custódio e ilustrações de
José Cardoso Marques. Campo das Letras (2001)
Humanizando a personagem do pai natal, elenca os seus
contextos de vida fora da época natalícia. Um pai natal versátil, usufruindo
das férias merecidas depois da época bucólica e agitada em que tem o seu
destaque, munido de telemóvel e computador portátil não descurando nunca, a
eterna faceta de responsável no que concerne às suas tarefas. As ilustrações
bastante coloridas numa composição analógica completam as descrições textuais.
Au Village des péres noel – ken kuroi e Junko kanoh (mango –
1991)
A ilustração remete para uma paleta de cores pastel, bem
luminosa, conferindo uma certa simplicidade estética que harmoniza texto e
imagem.

A ilustração de Maria Bouza, numa paleta de cores
pastel, alusiva à época festiva, de padrões também eles cumulativos, oferece a
simetria entre o aspeto gráfico, em perfeita harmonia com o texto (também este
sequencial).
O aspeto geométrico da ilustração assemelha-se a
uma construção de colagens e recortes, de nivelamento anatómico com alguma estilização
bem próxima do detalhe que é familiar das crianças. Estas reconhecem-se nesta
síntese bidimensional, muito próximo das suas criações gráficas.
Uma história que permite variadas leituras, podendo
transgredir na sua sequência narrativa, como na leitura gráfica, oscilando
entre cada acontecimento da vida diária e o desenrolar das mesmas para o
desfecho final. Este, particularmente hilariante e feliz, da vida de um peru à
mistura de bombons de mirtilos e limão.
O natal em família é feito de um tempo único de experiências
e brincadeiras, todas elas envoltas de algum secretismo, existindo mesmo
determinadas regras. É o que se passa contemplando:
Constitui-se como um livro jogo, interativo, partindo de
sinais de trânsito evoca determinadas regras natalícias (obrigações, proibições
e precauções) amovíveis que se destacam em cada página.
Se, por exemplo, quando neva, as crianças podem exibir o
sinal da obrigação de fazer uma batalha de bola de neve aos pais, também estes,
pelo seu lado, podem exercer o sinal de proibição para pedir muitos presentes
no momento de escrever sua carta ao Pai Natal, mas claro, o inverso também é
possível. Um modo lúdico e humorístico de revisitar e de agir durante a época
de Natal.
Livro grosso, cartonado, bastante robusto o que permitirá que
transversalmente crianças e adultos possam o utilizar e partilhar vezes sem
conta.

Um cachorro, evidente
na capa é o mote da trama. Abandonado na rua, acaba por chegar por engano, como
se de um presente se tratasse, a casa de uma família que o confunde
inicialmente por um peluche. Mas esta sinopse da narrativa é pobre para
descrever todo um texto esmeradamente poético e que nos coloca no papel do
personagem abandonado e fragilizado, perante as pessoas que correm à pressa, focadas
nas últimas compras, num tempo tão solidário.
Existe uma versão mais
recente com ilustrações de Tiago Pimentel (Edições Asa – 2016), nesta edição, o
desfecho final é quase evidente na capa, ao contrário da primeira edição onde toda
a ilustração a par da narrativa, nos deixa em suspense até ao final da mesma.
Em termos de ilustração, design gráfico e acabamento final, a minha
preferência, vai sem dúvida para a primeira edição.

Na noite de natal é certo que nem todos têm a sorte de ver a
chegada do pai natal. Outros porém conseguem-no. É o que se passa em Um
beijo para o pai natal de Elisabeth Coudol, (Edições Nova Gaia – 2001).
Max, a criança protagonista desta história, fica acordado à espera do pai
natal, como é sabido, todas as crianças têm esse desejo. Mas perante a alegria
do encontro existe o confronto com a velhice, cansaço e desalento do pai natal.
Depois de muitas tentativas por parte do protagonista, finalmente consegue
descobrir o que faz o pai natal sonhar! Por isso mesmo receberá um beijo do pai
natal. De narrativa simples, bem encadeada e com algumas peripécias
envolvemo-nos saborosamente a identificar as coisas simples da vida.
Ilustrações de cores vivas e quentes, a
par da época natalícia num desfecho final nas guardas do livro.
Une étoile dans la nuit –
Texto de Faustina Fiore e ilustrações , design e engenharia de papel por Andy
Mansfield – 2011 – editions Quatre Fleuves. O que confere particularidade a
este livro é o facto de se apresentar num espetacular pop-up que acompanha o
percurso da célebre estrela que
encaminhou os Três Reis Magos, qual farol no universo, numa clara mensagem
natalícia de se manter acesa a chama da partilha.
Mas depois do frenesim da data festiva fica todo um tempo
suspenso, quase bucólico e nostálgico. O contraste do tempo antes, a par de um
momento parado no tempo.
Depois do natal de Beatrice Alemagna; Bags of Books (2010),
retrata esse momento em que da agitação se dá lugar à calma, de um tempo
intermédio entre o antes “apoteótico” e o depois “nostálgico” no retorno a momentos
simples da vida, nos quais se aprendem novas competências ou se decidem novos projetos.
A ilustração de composição mista de colagens/fotografia/lápis oferece-nos no
desfilar das várias páginas duplas uma experiência sensitiva e nostálgica mas
sobretudo poética.
In: Instantes
Inclusivos da Revista: Educação Inclusiva (revista
da Pró-Inclusão -
Associação
Nacional de Docentes de Educação Especial) Vol. 8 - Nº 2 - (dez 2017) (pág.40-42)
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