quarta-feira, 15 de junho de 2016

O Rei Inchado







O Rei Inchado
Texto de Maria João Lopes
Ilustrações de Catarina Correia Marques
Máquina de Voar (2014)





Uma feira de vaidades onde tudo se vende! Brilho, talentos, troféus... Qualquer tipo de vaidade pode ser ali negociada. O rei, claro, por vaidade própria e consequentemente pela sua fraqueza tudo comprou e claro, depressa inchou com tanta vaidade!
A metáfora da superioridade, personalizada num rei caprichoso, caricaturando o poder e o indivíduo que tão centrado no narcisismo não consegue olhar os seus semelhantes: "a impossibilidade física de uma pessoa tão vaidosa ter os pés assentes no chão." 
A ilustração de decoupage, com contornos a grafite, na sua montagem digital, permitem evidenciar as diferentes texturas que intensificam os desenhos. 
Um livro de 40 páginas (peca, infelizmente, pela ausência de numeração nas paginas) que de modo hilariante evidencia os desvarios do poder e da frivolidade humana. 

Elvira Cristina Silva

sábado, 14 de maio de 2016

“História verdadeira e triste de SEIS HOMENS que procuravam a paz”

“História verdadeira e triste de SEIS HOMENS que procuravam a paz”
David Mckee
Nuvem de letras (2016)


David Mckee é sobejamente conhecido pela obra de Elmer, o elefante colorido inspirado na obra de Paul Klee.
“História verdadeira e triste de SEIS HOMENS que procuravam a paz”  foi escrita em 1972. Quarenta e quatro anos depois chega finalmente a Portugal numa edição da Nuvem de Letras. Caso para dizer, mais vale tarde do que nunca. 
Um livro, infelizmente sempre atual pela temática que aborda. A busca utópica da paz. É assim que tudo começa. E parece simples, porque a paz, aparentemente é fácil de encontrar, um lugar onde se vive, se constroem casas e se enriquece.  Só que ironicamente, quando se enriquece teme-se o perigo e a busca da paz torna-se defensiva e transforma-se em utopia.
Ilustrações de traço a preto e branco contrastando com a  cor do texto, visível nas guardas e na capa do livro evidenciando um caminho onde se desenrola o absurdo das guerras.  
Porque tudo começa com a paz, mas tendencialmente essa busca leva ao conflito constante do ser humano. Uma obra excelente para apelar às consciências e ao espírito critico.

Elvira Cristina Silva

in: Newsletter nº 98 da Pro Inclusão (maio 2016) . pág. 12 


quinta-feira, 12 de maio de 2016

Todos os Escritores do Mundo Têm a Cabeça Cheia de Piolhos

Por aqui há comichão à brava. Efeitos secundários, claro está!
Neste livro entra-se num mundo mágico, os conhecedores das ilustrações de Rita Correia reconhecerão o piscar de olhos à anterior colaboração de um livro com o mesmo autor (Vaidosa, Raposa, Gulosa) logo nas guardas iniciais onde em conjunto se encontram personagens de diferentes histórias. Um apelativo convite para o que nos espera. Um balão em forma de maçã desloca-se nas páginas iniciais aguçando o apetite para a leitura e para um olhar atento à ilustração. Entramos na história que já percebemos pelo título (Todos os Escritores do Mundo Têm a Cabeça Cheia de Piolhos). É verdade uma noticia, espalha-se assim facilmente, acontecimento típico de quem ouve os meios de comunicação sem contextualizar. 
Como na realidade dos nossos dias frenéticos, o prurido alastra-se causando o caos e o alarmismo entre os demais. 
Claro que os personagens, tanto dos livros para crianças como para os crescidos, não falavam de outra coisa e não faltou o uso de champô a outras medidas drásticas de intervenção, tudo porque se espalha o boato. Mas como não havia quem desse atenção ao escritor, que tentava explicar o contexto do que disse, as sábias personagens dos livros para crianças decidiram tomar uma medida e é desse modo que surge este livro.
Confusos? Comichão na cabeça?
É bom sinal, significa que há por aí ideias boas, quem sabe: (...) "personagens novas a quererem sair" para uma história ainda não escrita.(cit adap. pág 27)
Em jeito de parábola o texto é altamente contagiante, provocando a comichão constante. A ilustração, também revela o seu sentido figurado, oferece camadas de leitura, alargam o rumo do texto e espicaçam o olhar atento para a dimensão criativa da narrativa. Os pormenores são imensos. Referências literárias e gráficas perspicazes e com sentido de humor.
Uma tesoura que acompanha a ilustradora na utilização de colagens evidencia a técnica predominante utilizada com uma cuidada coerência na escolha de materiais gráficos, evidenciando até no lettering escolhido, toda uma uniformidade gráfica desta obra.
A guarda final permite-nos ainda uma opção de saída/entrada numa circularidade narrativa. Conta ainda, muito honradamente, a par da biografia do autor e inesperadamente, ao contrário de raras boas excepções, com espaço  também para a biografia da ilustradora que muito sabiamente usou os seus piolhos na ilustração deste livro. Sim, porque tal como os escritores, também os ilustradores têm a cabeça cheia de piolhos. 

Elvira Cristina Silva

in: Newsletter nº 98 Pró-Inclusão ( maio 2016) pág. 11