quinta-feira, 13 de abril de 2017

Grande Livro dos Medos do Pequeno Rato

Grande Livro dos Medos do Pequeno Rato
Emily Graveytt
Livros Horizonte (2010)

A ideia central deste livro é espiar os medos do pequeno personagem, obviamente numa identificação análoga à do “pequeno” leitor, os medos são evidenciados através dos seus termos científicos, a par de elementos visuais com sentido de humor que parodiam a carga de drama insolúvel que se manifesta em todos os animais.
Num primeiro momento, imagina-se que a autora fez o registo de cada fobia no cabeçalho de cada página, convidando deste modo o leitor a preencher o espaço em branco, de acordo com a sua vontade e necessidade própria.
No entanto, deparamo-nos com um livro já usado e preenchido por um anterior leitor: um rato. Este, que desde o início se apresenta na capa, rasurando o nome da autora e colocando o seu, roendo um buraco no livro.
É através desse buraco que o avistamos, na companhia do lápis que permanecerá com ele ao longo de todo a narrativa, pois é com esse utensílio que irá enumerar os seus medos e de certa forma, espera-se, que os supere, como é referido na página de abertura. Lida-se com os medos através do rabiscar, o protagonista dá o mote com o lápis que sempre o acompanha. Lápis espiador dos medos, à semelhança do cobertor do Linus (personagem dos “Peanuts”). A mediação deste livro, permite, deste modo, abordar os medos, alargando a opções lúdicas.
Diversas técnicas e materiais, como desenhos a carvão, colagens de jornais, postais, mapas, fotografias, pensos rápidos e outros elementos relacionados com quedas, azares e infortúnios diversificados, ilustram os medos do personagem, quiçá, a par, também dos receios do leitor.
No final da narrativa o confronto entre o rato e a autora, conflito este que provoca a reflexão sobre o relativo e a subjetividade perante os receios individuais.  Nesta ténue conjugação dos elementos visuais que implica uma observação atenta e dedicada, encontra-se o fascínio deste livro. Todo ele numa delicada coerência, desde a qualidade do papel (textura), capa (dimensão e formato, com a particularidade de existir um buraco de onde se avista o rato protagonista da ação), até à dimensão da narrativa.
A capa, antevendo, o conteúdo, manifesta-se original, no impacto visual que oferece. Revela-nos uma janela para a descoberta, dando já uma piscadela de olho aos medos, revelados posteriormente. Assim como o adequado aproveitamento das guardas, na introdução ao tema (pensos rápidos, escadas, animais ferozes, facas afiadas...) anunciam, habilmente, uma narrativa terrífica. 
Um ponto forte, deste livro, é sem dúvida, a relação assumida de complementaridade entre texto e imagem, onde ambos os elementos coabitam no mesmo espaço e se complementam. A narrativa é feita em diversas camadas, compreendida através da ilustração, de elementos textuais e paratextuais.
O tipo de letra, assumido como sendo feito à mão, convive com letra de imprensa de recortes, mas toda essa mistura é composta de forma cuidada, não deixando o leitor confuso.
O pictórico das ilustrações e a legibilidade das mesmas, harmoniosamente colocadas com o escasso texto, remetem para uma facilidade na leitura, quer
pela sua disposição organizada na página, quer pelo imaginário e humor que proporcionam.
Um livro que se apresenta muito coerente no ritmo e na cadência que surpreendem em cada página, na cuidada ilustração e a previsibilidade do final que amainará todos os receios enumerados.
Numa conjugação perfeita de simplicidade, sendo esta a experiência subjetiva e julgamento de um observador, o leitor é convidado, através de todo o aspeto gráfico, a estabelecer empatia com o enredo (temática) e a identificar-se com a riqueza simbólica da informação, possibilitando aceder a novas experiências de informação.
A autora, cativa o seu público alvo e encanta os leitores adultos, na medida em que são perceptíveis informações paralelas, sendo neste sentido que se insere a complexa simplicidade deste livro e a capacidade para estimular a imaginação.
Versando os medos, este livro, ecoa em todas as idades (para além da faixa etária recomendada pelo PNL), pelo facto de possibilitar não só os diferentes “modos de olhar e de ver” bem como pela transversalidade temática cultural e histórica de cada individuo. Livro que, muito provavelmente, se ficará com algum receio de o perder!


Elvira Cristina Silva

in: Newsletter da Pin- Pró-Inclusão (março 2017) pág. 11

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